O dia iniciou nublado, ameaçando chuva, mas logo cedo ficou radiante, como já se tornou rotina neste seco e quente inverno. Nosso encontro, misto de pedalada e reunião, teve como destino inicial a Costa da Lagoa, localidade da Lagoa da Conceição acessível apenas por barco ou trilha. No ponto de encontro, ao lado da tradicional feira de produtos orgânicos da praça da Lagoa, participantes conversavam e davam os últimos ajustes nas bicicletas quando cheguei.
Entre as dez bicicletas presentes no dia, oito percorreriam os caminhos da viagem da independência, na semana seguinte. Para acostumá-las, iniciamos o passeio à beira da Lagoa até a Ponta das Almas, onde um Sambaqui à beira do espelho d?água é prova de que os índios há muito tempo já sabiam o que é qualidade de vida.
Seguimos pela tranqüila estrada do Canto dos Araçás, que gradualmente perde o pavimento e ganha árvores, até se transformar na trilha que leva à Costa. Ali, na chamada Ponta Grossa, onde o canal profundo da Lagoa tem apenas 200m de largura, iniciou-se nosso sobe-desce. Não só dos pequenos morros da trilha, como também de nós mesmos, que por diversas vezes tivemos que empurrar e até carregar as magrelas.
Pela trilha, que até pouco tempo atrás era transitada por carros de boi, chegamos à Vila Verde e seu Engenho de Farinha, um dos poucos ainda ativos da Ilha, marca de um tempo em que a agricultura ainda não havia cedido ao turismo o posto de principal atividade de subsistência da população.
Carregadas as garrafas d?água, seguimos pedalando-empurrando-carregando até aFreguesia da Costa, onde há maior infra-estrutura (posto de saúde, restaurantes, etc.). Ali, uma trilha adjacente nos conduziu à Cachoeira da Costa, que sob o calor do meio-dia se tornou extremamente convidativa. Poucos de nós imaginamos que o dia seria tão lindo e a maioria ficou só na inveja do banho nas água Cachoeira, que apesar de escassa devido à pouca chuva, foi providencial.
O lanche da cachoeira não enganou nossos estômagos, e nem precisava. Afinal, a Costa é conhecido recanto de restaurantes de frutos do mar, com atendimento atencioso e preços honestos. Dali seguimos então ao Paraíso da Néia, indicado por nosso colega Adilson, que de tanto gostar da Costa ?comprou um terreno? no caminho…
O almoço farto nos fez dividir cada prato para 2 pessoas por 3 ciclistas, pois tínhamos bastante pedal pela frente. Mesmo assim,ninguém resistiu à meia horinha de soneca.
Havia a opção de atravessarmos de barco para o Rio Vermelho, encurtando o trajeto em 20km, porém em consenso decidimos por curtir todo o trajeto. Assim, subimos nas bicis e seguimos rumo ao Saquinho da Costa, até a entrada da trilha que atravessa o morro rumo ao Ratones, no lado Oeste da Ilha.
Os ?empurrões? rumo acima, em meio às voçorocas da desgastada trilha, se mostraram valiosos ao olharmos para trás. Do alto do morro tem-se uma visão privilegiada da Lagoa, Parque do Rio Vermelho, praias do Moçambique e Barra da Lagoa, dunas da Joaquina e Morro da Mole, além da mata fechada que circunda a lagoa na região do Saquinho. Todos locais que ainda percorreríamos mais tarde.
A partir dali, na descida para o Ratones, a trilha se tornou mais pedalável, com direito a adrenalina e velocidade na chegada ao plano. Em meio ao clima rural de Ratones, nada como algumas bananas no bar da encruzilhada da estrada que leva à Vargem Pequena. Do alto do morro que divide as duas localidades, tivemos um panorama da Bacia do rio Ratones, a maior da Ilha, que vem sofrendo lentamente com a pressão imobiliária e suas conseqüências nefastas ? abertura de vias, poluição por esgotos, entre outros. Ainda assim, um maravilhoso local.
Da Vargem Pequena, cortamos por uma pequena trilha o caminho que leva à Vargem Grande, evitando um trecho grande e movimentado pela SC-401. Ali o progresso está chegando, evidenciado pelo asfalto novinho, que felizmente termina antes do morro que divide a Vargem do Rio Vermelho.
Após mais um visual e descida recompensante, pedalamos por calçamento ao largo do comprido bairro do Rio Vermelho, que vive também o dilema da transição entre bairro rural e urbanizado, apresentando contrastes de pastos ao lado de lindas casas em ruas pavimentadas e becos lotados de barracos.
Após passar o bairro entramos nos limites no Parque Florestal do Rio Vermelho, área que apesar de sua extrema importância ecológica sofre com o descaso e ganância do Governo Estadual, que até hoje não regularizou sua situação como Unidade de Conservação. Um dos reflexos disso é a ocupação do Parque por diversas entidades, como Campings, Estação de Tratamento de Esgoto e Base da Polícia Ambiental.
Esta última, ora alegando a presença de colméias de abelhas, ora por ?razões de segurança”, impede o acesso às trilhas que margeam a Lagoa, utilizadas pela população muito antes da sua instalação no local.
Estas trilhas, além de serem muito mais agradáveis e belas de serem percorridas, passando por locais como uma imensa figueira que é um ninhal de Fragatas à beira da Lagoa, são bem mais seguras para ciclistas do que a rodovia que corta o parque, onde o excesso de velocidade e acidentes são freqüentes. Ponto negativo para a Polícia Ambiental, péssimo exemplo!
Seguimos pela estrada mesmo, desviando um pouco mais à frente para percorrer um trecho da trilha, em meio à vegetação densa.
Fizemos uma última visita à Lagoa, rápida pois os mosquitos ali são impiedosos, e rumamos à Barra da Lagoa, para nosso último desafio, o Morro da Barra. Como uma espécie de troféu pela pedalada e especialmente a subida, o pôr-do-sol estava especialmente belo, e tudo se tingiu de vermelho, céu, água, nossos rostos – bem, esses últimos corados pelo esforço físico!
Já no crepúsculo, a menos de 2km do final da nossa jornada, nossa colega Daiane viu um oásis na Avenida das Rendeiras: caldo de cana! Não pensou duas vezes e atravessoua rua para tomar um, mas esqueceu que não estávamos mais na trilha. A moto, em alta velocidade, ainda tentou desviar, mas passou no pé de nossa amiga, que teve que terminar a pedalada colocando gesso no pé.
Final injusto para o maravilhoso dia que passamos juntos! E justo ela, que estava tão ansiosa para a pedalada Mar, Sertão e Baleias. Mas liga não Daiane, na próxima ou na outra estarás pedalando conosco!