Parque do Itajaí e a transformação do Faxinal

Em 1952, a família Molinari deixou a cidade catarinense de Botuverá para ocupar as terras que acabara de adquirir do governo brasileiro. O caminho entre a cidade e a nova propriedade era – e ainda é – uma trilha de cerca de 20 km rasgando a densa Mata Atlântica. Como se não bastasse o difícil acesso, a baixa fertilidade daquelas terras foi outra dificuldade encontrada pelos Molinari, imigrantes italianos vindos da região do Tirol.

Como a agricultura  era pouco promissora, Bepe, o patriarca da família, optou pela pecuária, cuja renda possibilitou sustento digno a sua família e a quitação das dívidas com o governo. “Produzimos muita lingüiça para honrar o compromisso. Em dois anos, pagamos os títulos e nos apossamos definitivamente da terra”, conta o seu Ari Molinari, que na época tinha 14 anos. A partir de então, aquele rincão distante ficou para sempre batizado de “Faxinal do Bepe”.

Chegamos ao “Faxinal” – nome dado a terras de vegetação rasteira, pouco férteis – na sexta feira 13, um dia depois do previsto. A chuva da véspera, que não deu trégua, nos forçou a adiar a expedição. Partindo de Blumenau, pedalamos 40 km, mais da metade por estrada de terra íngreme, morro acima. Boa parte do trecho foi na área do Parque Nacional da Serra do Itajaí, que completou dois anos em junho passado.

NASCENTES E ALTA BIODIVERSIDADE NA MATA ATLÂNTICA

Duas características, entre tantas, destacam-se como justificativas que culminaram na criação da unidade de conservação. A área de 57 mil hectares onde está o Parque conserva incontáveis mananciais de água pura. Na pedalada, não raro atravessávamos córregos cristalinos, alguns sem ponte, com aquele típico visual “Camel Trophy”. Além das nascentes, o estado de conservação e a biodiversidade da serra do Itajaí configuram-na como uma relevante reserva de floresta. Esse dado levou o Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica a propor ao Ministério do Meio Ambiente a criação de um Parque naquela região, já que esse bioma (Mata Atlântica) está hoje reduzido a 7,84% de sua área original

Mas nem tudo são flores na criação de um Parque Nacional. De uma hora para outra, as famílias que vivem na área de conservação confrontam-se com o problema de ter que abandonar suas terras. No entanto, apesar de viver há 54 anos no Faxinal do Bepe, que fica no coração do Parque, seu Ari Molinari parece não se incomodar muito com a questão. “Se a indenização for boa, deixamos a terra, sem problema”, resigna-se. Sua esposa, dona Fortunata, com quem é casado há 43 anos, também concorda com a retirada. “Vamos morar mais perto da cidade. Não é fácil viver isolado de tudo”, relata.

Depois de pedalar mais de 20 km em subida, um consolo. Logo após o enorme portão de ferro, na entrada do Faxinal do Bepe, a descida é vigorosa, técnica e divertida. Teve gente que, tão logo chegou a casa do seu Ari, subiu de volta a “lomba” para tomar mais um pouco de adrenalina ladeira abaixo! Outros colegas aproveitaram para inaugurar o barril de cerveja artesanal que trazíamos na bagagem – afinal de contas, é tempo de Oktoberfest, e já cumprimos nossa missão pedalística do dia.

A BARBÁRIE DOS BUGREIROS

Não posso disfarçar o orgulho. Essa seleta cerveja, elaborada com maltes especiais segundo a lei de pureza alemã, é feita em minha própria casa, no Canto da Lagoa (Florianópolis). Sou apenas um fiel discípulo (e degustador) da arte cervejeira. O trabalho é obra dos colegas que moram comigo, Tiago Pinto e Fernando Torrezan, que dedicam-se, com competência, ao processo alquímico de combinar água pura da floresta, malte de cevada, lúpulo e levedura, produzindo excelentes cervejas.

O produto agradou também o seu Ari Molinari, além dos sedentos cicloviajantes. Entre uma e outra taças, o senhor de forte sotaque italiano trazia suas memórias à tona. Contou que, durante a colonização daquelas terras remotas, os índios eram mortos com requintes de crueldade. Tal barbárie não era novidade para mim – as histórias dos “bugreiros”, como eram conhecidos os assassinos dos índios, são comuns em Santa Catarina. Mas alguns assombrosos detalhes da matança foram revelados pelo seu Ari.

“Era o governo quem contratava os bugreiros”, revela. “Os índios não faziam nada, as mortes eram gratuitas”. E os métodos eram dos mais hediondos. Algumas tocaias eram armadas logo após os grandes festejos indígenas. Nessas ocasiões, a comilança era exagerada, e a indolência dos índios os transformava em alvos fáceis. Munidos de espadas, invadiam as aldeias e distribuíam os golpes mortais sem distinção. Nem as mulheres, crianças e idosos escapavam das lâminas.

GLUTÕES E O SÓTÃO DA “VOVÓ”

História vai, história vem, e o estômago ronca – já é hora de provar a culinária sertaneja da dona Fortunata. À luz de velas, porque calhou de faltar energia bem naquele dia, o que foi comemorado por todos (exceto por quem teve que tomar banho frio!). Galinha caipira, porco idem. Polenta com molho, da mais arraigada tradição italiana. Conservas fabulosas: couve-flor, palmito, cenoura e beterraba. Não haveria glutão que botasse defeito. Barrigas repletas, assuntos escassos, indivíduos bocejantes – já é hora de dormir. Pernoitamos no sótão de madeira, como legítimos netos de uma vovó fazendeira.

Pela manhã, a “vovó” Fortunata novamente deu um show. E lá vamos nós, glutões, cumprir a árdua tarefa de devorar bolinhos de chuva, cucas, pães caseiros, mel silvestre. Não estamos em fase de crescimento, mas pedalar exige energia! Seguimos viagem e a lama da estrada, lisa como graxa espalhada no chão, dava um prenúncio do que enfrentaríamos no dia.

MEIA-VOLTA, VOLVER: LAMA “ENGRAXADA” NO CAMINHO

Para as bicicletas nem foi tão difícil, mas para a caminhonete simplesmente impossível. Azar para mim, que cumpria escala no carro de apoio justamente naquele dia. Despedi-me dos colegas e fui em direção contrária, fazendo uma volta de 100 km antes de encontrá-los novamente. Só conheci as descidas alucinantes por fotos e pelo relato da rapaziada. Em Apiúna, um dos 9 municípios que tem parte da área inserida no Parque, finalizei minha função de motorista e voltei a pedalar.

Nesse momento estávamos no nível do majestoso rio Itajaí, e boa parte do pedal foi na margem dele. Vez ou outra cruzamos o leito, por pontes de todos os jeitos. Uma delas, curiosa e insólita, era coberta por um telhado de duas águas. Passamos por Ascurra e Indaial, e entramos em Blumenau pela rua Bahia. Depois de 80 km de pedalada (mais 40 no primeiro dia), terminamos a expedição com uma celebração no bar da Eisenbahn. Em clima de Oktober, uma banda de ritmos alemães tradicionais embalava o local

Depois de confraternizarmos, as despedidas. E a maior das aventuras: encarar as BRs 470 e 101 de noite, com chuva, de volta a Floripa (de carro, é claro). Felizmente, nenhum contratempo na jornada. E que as bênçãos jamais abandonem os inveterados cicloviajantes!

por Fernando Angeoletto

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