– Ali naquela praia tem uma lagoinha, onde mora um jacaré.
Daniel, de 12 anos, garantiu que já tinha avistado o bicho pessoalmente, inclusive. Afastou as mãos, num espaço de pouco mais de um metro, para ilustrar o tamanho da criatura. Disse que quem passa por ali já está acostumado, e nem se assusta mais com o ilustre morador.
Entre as cristalinas praias de Bombinhas e a pequena comunidade pesqueira de Santa Luzia, instalada no mar turvo da baía do rio Tijucas, o caminho costeiro de 10 km abriga um tesouro. São sucessivas prainhas desertas, de difícil acesso, e por isso mesmo resistindo ao turismo de massa que torna impraticáveis os balneários vizinhos na temporada. Começamos a pedalar pela trilha, cujo início é em Zimbros, na manhã nublada de sábado, 18 de novembro.
A partir da praia da Lagoa, acentua-se o grau de dificuldade do trajeto . Surge, então, o Príncipi (assim, com `i` mesmo) da Paz. Não havia trapiche ali, tornando quase épica a tarefa de embarcar 13 bicicletas e passageiros no barco, um pesqueiro de camarão que agora presta serviços para turismo.
O menino Daniel é filho de Eduardo, o comandante. A timidez de criança que vive em vila pequena está em transformação. Afinal, há algum tempo o barco do pai é requisitado por gente de fora, cujo interesse é chegar em algum reduto escondido para acampar ou pescar, ou simplesmente contemplar. E Daniel sempre vai junto no passeio. Quando passamos em frente a praia Vermelha – cuja areia, realmente, é da cor do nome – o menino aponta o dedo e me conta sobre o jacaré.
A viagem termina na praia da Ponta Grande. Uma canoa se aproxima para auxiliar no desembarque, sob olhares curiosos dos poucos moradores. Houve quem dispensasse a ajuda do barquinho. Dois ou tres caíram na água em posição nada digna, arrancando gargalhadas da turma. Por respeito aos colegas, recuso-me a contar quem foram.
UM CABO-DE-GUERRA E A INEVITÁVEL CENA HILÁRIA
Bikes na trilha, novamente. O caminho alarga-se, o suficiente para permitir carros, mas felizmente não encontramos nenhum por ali. Sob sombra de frondosas árvores, margeando o mar cor de caramelo de Tijucas, percorremos as últimas praias. Em Santa Luzia, parada obrigatória na Petisqueira do Nelinho. Enquanto tirávamos a lama das bicicletas, um morador mostrou seu barco e pediu ajuda para tirá-lo da água, tão logo terminássemos de almoçar. Pensei que fosse brincadeira.
Peixe frito, grelhado, pirão. Lula a dorê, mariscos, camarão. Ao molho e empanado, suculento e farto. Delicioso exagero o almoço no Nelinho – pedalo, logo queimo calorias, e assim amenizo a culpa!. Ainda processava-se a digestão quando apareceu o barqueiro. “Estou esperando vocês para remover o barco.” Ainda achava que era gozação, mas ele insistiu. Entre os pedalantes, apareceram vários voluntários. Participaram de um cabo de força pra lá de injusto – a gravidade sobre o barco era muito mais forte que os cerca de 10 puxadores. E a cena hilária foi inevitável: rompe-se o cabo, homens e mulheres estatelam-se no chão. No clique da Flavia, o registro incontestável. Não perdeu-se a foto, e muito menos o bom humor!
ROSCAS DE POLVILHO E A CHUVA QUE NINA
Descansados, deixamos Santa Luzia e logo atravessamos a cidade de Tijucas, cuja vida econômica orbita a Cerâmica Porto Bello, que rasga a paisagem com sua assustadora imponência industrial. Distante da BR 101, cruzamos o rio Tijucas – cujas águas carregadas de sedimentos invadem a orla, tornando-a pouco convidativa para o turismo – por uma ponte de ferro, antiga e bela, herança dos caminhos antigos. Dali pra frente, o trecho é todo rural, e o burburinho da cidade fica definitivamente para trás.
Findava-se o dia, e a chuva começava, quando chegamos ao sítio Caminhos do Sertão. A estrada termina ali, naquele pedaço de mundo pouco visitado, com todos atrativos que a vida cena bucólica pode oferecer. Mas o espaço já não é mais o mesmo. Agora é preciso dividi-lo com uma colossal torre de energia, instalada sob questionáveis compensações econômicas e ambientais. Haverá limites para o “progresso”?
No albergue rural, dona Catarina suava, na beira do forno a lenha. Não queria descuidar das fabulosas roscas de polvilho, assadas sobre pedaços de folha de bananeira. Ao mesmo tempo, Ana Pereira dava os últimos toques na reconfortante canja de legumes. Com a sutil combinação de rosca e canja, sucedidas por frutas, bolos e doces diversos, os cicloviajantes compuseram a refeição. Durante a digestão, ao invés de tirar um barco do rio, a turma divertiu-se com histórias dos mais distintos temas, embalada por batidas de violão e pandeiro.
Sob o galpão de madeira e alvenaria, dormimos tendo a chuva como canção de ninar. Fraca, mas sempre constante, como seria no dia seguinte. Ninguém, entretanto, esmoreceu. A chuva é só mais um ingrediente, também dá sabor a aventura. Com sujeira em excesso, as marchas começam a encrencar. Mas até pra isso tem remédio: a água forte que escorre da canaleta, no viaduto sob a BR, deixa as bicis limpinhas em folha.
Chegando na Caieira, que pertence a Gov. Celso Ramos, a escuna Clarin nos aguardava. Ela é grande e confortável, mas ficou pequena diante do robusto barco turístico, atracada na outra borda do rústico trapiche de madeira. Na travessia da baía Norte, rumo a Ilha de Santa Catarina, persiste a chuva fina. Passamos ao largo da Ilha do Ratones, próximo o suficiente para apreciar a arquitetura de sua antiga fortaleza, e logo protagonizamos outro memorável desembarque no trapiche de Sambaqui. Não há como encostar o barco; Gabriel, capitão da Clarin, manobra com maestria enquanto botamos as bicis no píer liso qual sabão e, ainda por cima, flutuante. Sucesso absoluto – nada que lembrasse o mico da corda arrebentada em Santa Luzia, felizmente!
No restaurante Kacimba, a tradicional celebração. Ainda havia o trecho entre Sambaqui e a Trindade; impossível narrá-lo, porque a partir de Cacupé minha magrela me traiu e fui obrigado a passear de carro de apoio. Alguém se habilita a contar o final da história? Complementos em nosso mural de recados serão benvindos!
Abraciclados e ciclísticos a todos!