Das colônias alemãs ao litoral

Quinta-feira, 15 de junho de 2006. Na última semana do outono, a inconstância do clima é pródiga e nos contempla com um dia ensolarado e temperaturas amenas. A dádiva é ainda maior : é início de mais um feriado prolongado. who owns domain . Ficar em casa entregue ao sofá, espiando a Copa passar? Nada disso! Entre uma e outra vitória magra do Brasil, deixamos a tevê de lado para aquecer as canelas de verdade, durante os 3 dias de pedaladas pelos Caminhos do Sertão.

Com um grupo de 15 pessoas, deixamos Floripa de van e seguimos até o Salto do Rio Vermelho, uma imponente cachoeira  inserida nos limites do Parque Estadual do Tabuleiro e do município de Águas Mornas.  Deste ponto, onde iniciamos a viagem, estávamos a 33 km e cerca de  350 m de altitude abaixo de Angelina, a meta do dia. Traduzindo: boa parte deste dia foi pedalando ladeira acima!

Cada qual no seu ritmo, os cicloviajantes inspiraram-se na força da natureza e serenamente foram ganhando altitude. Para o descanso merecido, a primeira parada foi no sítio do seu Quirino. Diácono da paróquia de Loeffelscheidt e simpático como ninguém, o senhor de fala mansa e óculos com lente espessa leva a cabo uma atividade pouco praticada na região: a produção artesanal de vinho. E a bebida de Baco não é mero artefato para a celebração da missa. Diz o seu Quirino que a vizinhança toda passa por ali para comprar o produto que, embora não evoque tanto as papilas quanto os vinhos finos, possui aroma e cor peculiares que só uma pequena produção pode garantir.

Chegamos em Angelina ainda de dia ? o ritmo do grupo, mesmo com tanta subida, foi surpreendente. Durante a pedalada, observar a ascendência alemã era comum, estampada nas faces de cada colono que aparecia na estrada. Já na cidade, um grupo de pessoas, quase todas negras, destacava-se da população. De uniformes vermelhos, com marcas de barro e graxa ? o que mostrava que a labuta havia sido pesada, mesmo naquele dia de feriado – , os trabalhadores, arrebanhados em outros estados, cumpriam a empreitada de montar as torres de uma nova linha de transmissão de energia para o Sul.

De noite visitamos o Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, cuja imagem repousa sob o leito de uma simpática cachoeirinha. O local compõe o rol de atrativos do turismo religioso praticado na cidade, que também é farta em belos cenários naturais. Manhã seguinte, despertamos cedo para cumprir os 60 km que nos separavam do sítio Caminhos do Sertão, destino do segundo dia de viagem. Dessa vez, saímos dos 450 m de altitude para chegar praticamente ao nível do mar. Ladeiras abaixo, e lá vamos nós!

Pouco antes de São Pedro de Alcântara, desviamos pelo Caminho das Tropas. Um trecho curto a beira-rio, todo emoldurado pela mata e calçado com pedras irregulares, é resquício das primeiras picadas entre o Litoral e a Serra, abertas de forma épica no século XVIII. Pedalar por ali exige atenção e destreza, mas a recompensa é garantida pelo cenário histórico e natural. De São Pedro, com sua igreja-matriz de arquitetura arrojada, foi tarefa fácil descer a Antonio Carlos, o cinturão verde de Floripa, a apenas 30 m do nível do mar.

De noite, no sítio, nada melhor que um bom bate-papo ao redor da fogueira, depois de uma sopinha com rosca de polvilho, tudo feito por ali mesmo. Com a mente serena e os corpos exaustos, deitamos cedo nos beliches para repousar feito crianças. Já é sábado, último dia da viagem. Canjica, bolos, pães, queijos e doces, tudo feito pela Ângela, que mora no sítio, garante-nos suficientes e sobressalentes energias para pedalar pelos 50 km da última etapa.

De todos os dias, o  último é o mais estável quanto a topografia do percurso. Os pacatos bairros rurais vão ficando para trás e a BR 101 é o primeiro indício de que a grande Florianópolis é mesmo por ali. Cruzamos a estrada no rumo das praias do sul de Governador Celso Ramos, que ainda conservam características de colônias de pescador. Seu Maneca, capitão do barco de mesmo nome, atracou no trapiche próximo a Ilha de Anhatomirim para nos transportar até a praia de Sambaqui, no outro lado da Baía Norte.

Após o desembarque, peixinho frito e celebrações no Kacimba, um agradável restaurante feito de toras que fica a beira-mar. No último trecho, pedalamos pelas praias de Santo Antônio de Lisboa e Cacupé, e depois pelos bairros Monte Verde e João Paulo, evitando, dessa forma, o trânsito ameaçador da SC- 401. É uma ótima pedida para quem quer pedalar de forma segura e prazerosa pelo norte da Ilha. No bairro da Trindade, mais celebrações e a inevitável despedida.

Até breve companheiros, será um prazer revê-los e compartilhar com vocês outras surpresas que nos aguardam pelos Caminhos do Sertão!.

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