É Carnaval – Chuva, suor e pedal !

Sábado de carnaval, o sol brilhava em nossa saída da Ilha de Santa Catarina. Menos de uma hora depois, estávamos em clima totalmente diferente: o tempo um pouco nublado, o ar bem mais frio. Pudera, estávamos a quase mil metros de altitude, no município de Rancho Queimado. Iniciamos nossa jornada em uma estrada que, apesar de asfaltada, valeu a pena: são alguns km de descida até Angelina. Ali fizemos uma pequena pausa para um lanche e ajustes nas bicis, pois a pedalada estava apenas começando…

Na saída de Angelina já inicia a primeira subida forte, onde o sol voltou a aparecer. Dali até a divisa com São Pedro de Alcântara, mais subidas fizeram a galera sentir o nível do verão catarinense, mesmo na serra. Fizemos um lanche rápido de frutas, pois sabíamos que dali em diante o caminho desce acompanhando o Rio da Rocinha, passa pelo Caminho dos Tropeiros, trecho de estrada antiga feito de pedras, chegando ao centro da cidade.

Em pleno carnaval, não havia muitas opções e ficamos no sanduíche, acrescido do delicioso queijo e pão alemão que o viajante Mario trouxe. Um sorvete per capita, a obrigatória foto em frente à rósea catedral de São Pedro e retomamos estrada. Apenas poucos minutos e estávamos novamente em estrada de terra, descendo ao lado do Rio Matias. Chegando a Santo Amaro da Imperatriz, fizemos uma parada rápida na matriz da rede de hipermercados – cujo nome empresta da cidade – que conta inclusive com uma inusitada estátua do fundador na entrada da loja.

Um pequeno morro nos separava do Hotel, onde tomamos um merecido banho de piscina após um dia tão quente. Fomos para o restaurante a pé, e o jantar foi deliciosamente sonífero.

A água tomou a cena no segundo dia. Em frente à janela, a piscina cor de anil e percorrendo o olhar pela vista, víamos ao lado do Hotel o Rio Cubatão, que abastece as pessoas de água e endorfina, caso queiram descer suas corredeiras. Nosso destino, Águas Mornas, cidade onde um dia se tinha acesso público às águas termais, hoje monopolizadas por um grande hotel.

Após o centro do município, um caminho de terra serpenteia morro acima até a Vargem Grande, próximo à BR-282. Dali, um típico caminho do sertão nos leva à cachoeira do Quirino, que após a morte do patricarca que a batiza tem hoje seu acesso conturbado devido às desavenças entre os dez herdeiros. Proibidos de entrar e curtir um banho que sabíamos ser maravilhoso, fomos salvos pelo jogo de cintura da nossa companheira Cris, que convenceu o representante do clã, mesmo ele com faca de churrasco na mão… 🙂

Claro que valeu a pena, não só pela vontade louca que estávamos pelo banho, pois a cachoeira é realmente deliciosa, pela sua queda d’água forte e gelada e o poço, negro de tão profundo. Agradecemos a cortesia da família, com a esperança de poder continuar a desfrutar daquela maravilha que é de todos os seres desta terra.

Fizemos um lanche à beira do rio, de onde saímos acompanhados da água, essa vinda de cima. O descida da volta respingava lama fina para todos os lados e a parada foi direto no chuveiro. A chuva persistiu e após o almoço não se via cara animada com o pedal proposto para a tarde. Pudera, o programa era subir 4 km e sguir por um vale para… ver água! Nem mesmo a garantia de que Vargem do Braço é maravilhoso adiantou. O jeito foi seguir a trilha que segue paralela ao rio Cubatão, admirando seus remansos.

Sem pedal à tarde, todo mundo estava pilhado na sessão de fotos que fizemos à noite no Hotel, cujo dono Sr Roberto se mostrou um grande admirador de cachaça, com exmplares curtidos com butiá e lichia. Não fosse a pizza que recheou nossas barrigas, pobres de nós no dia seguinte…

Acordamos, chuva. Café da manhã, chuva. Preparar a bagagem e bicis, chuva… o jeito foi colocar a jaqueta, cerrar os olhos e partir! Felizmente, após o primeiro km o corpo já se acostuma, e logo adiante nem mais percebíamos que a chuva já tinha acabado.

Assim como, ao percebemos, já tínhamos rodado 15 km e chegado à cascata Cobrinha de Ouro. Em princípio íamos fazer só o lanche, mas ninguém resistiu a se molhar naquelas quedas. Um tantinho de papo pro ar, afinal numa viagem dessa o importante é contemplar…

Ainda curtimos mais um bom trecho à beira do rio Cubatão, até o início do calçamento que nos levou à Enseada do Brito. Pequena vila de pescadores, espremida de um lado pela Serra do Tabuleiro, do outro por uma baía abrigada dos ventos nordeste e sul, hoje a enseada conta com a renda extra dos cultivos de mariscos e ostras. Surpreendente com a menos de 200m da BR-101, dali não se vê movimento ou se ouve barulho dos veículos, uma paz só.

Esperamos ao lado da igreja, ladeada por imponentes e centenárias palmeiras-reais. Após embarcarmos na baleeira Corsário, rumo à ilha de Santa Catarina, por um bom tempo ainda víamos as árvores ao olhar para trás. Em frente havia o vento sul, gelado, que vez em quando jogava um espirro d’água em cima de nós. O capitão Zezinho, de bermuda, nem mudava sua semblante tranqüila enquanto nos aproximávamos lentamente da Caieira da Barra do Sul.

Não foi cambinado, mas pareceu: bastou terminar de nos vestir e ir ao banheiro para recomeçar , o carro de apoio, que deu toda a volta pela ponte, voltou à nossa companhia. A parte final da viagem, subindo a parte sudoeste da ilha, foi fácil: primeiro, asfaltaram o último trecho de terra da estrada.. 🙁  O caminho cheio de curvas, nos revelava prainhas covidativas e inúmeros cultivos de ostras. O vento colaborou soprando forte a favor, é logo estávamos passando pela igreja e casario do Ribeirão da Ilha, uma dos distritos mais antigos da ilha – e o mais preservado.

Não podia ser de outro jeito, fechamos a viagem à beira do mar, degustando um filezinho de peixe, além de muitas e suculentas ostras. Vez por outra em meio à refeição, ao olhar pela janela, víamos o mar e a montanha nos acenando:

– Até a proxima viagem, aqui nos Caminhos do Sertão!

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