A presença de dezenas de lagoas, espremidas entre a vegetação litorânea e os contrafortes da Serra, é uma característica bem marcante de nosso litoral Sul. Enormes, como a Lagoa do Imaruí, ou modestas, como a Lagoa do Meio na praia do Rosa, elas são um atrativo à parte e compõem a diversidade de cenários e ecossistemas que esparramam-se pela costa catarinense.
Há também a Lagoa do Quintino, unida por estreito canal à Lagoa da Ibiraquera que, por sua vez, comunica-se esporadicamente com o mar através da Barra, um canal naturalmente fechado (sem fluxo de água) na maior parte do ano. Naquele dia, porém, seria diferente. Já no início da pedalada soubemos que a Barra havia sido aberta pela ação humana, pressupondo um inconveniente, embora as informações dessem conta de que a água não passava dos joelhos.
Com tempo fechado e vento pela frente – fato que, de maneira alguma, baixou o moral do grupo! – deixamos a praia de Itapirubá próximo de meio-dia, no dia das Crianças. Na sede do projeto Baleia Franca, ponto da saída, a boa-nova: 11 pares de baleias, mães com seus filhotes, exibiam-se desde o dia anterior nas praias da Vila e da Ribanceira, justamente por onde passaríamos pedalando!
A maré ascendente exigiu destreza. Os rastros dos pneus eram estrias bem sinuosas, descrevendo a constante busca dos cicloviajantes por um pedaço minguado de areia dura, entre a linha das marolas e o banco de areia fofa. Nem todos puderam livrar-se da safadeza de umas ondas mais afoitas, que molhavam, impiedosas, a magrela e as canelas do vivente.
Evoluções das gigantes
Ao final da Praia da Vila, um asfaltinho pra relaxar. Parada estratégica no quartel Corpo de Bombeiros, que de certa forma nos salvaram, cedendo uma mangueira para livrarmos as bicis da cruel ação da areia. Em seguida, visitamos o Museu da Baleia Franca, instalado num prédio onde processava-se o óleo das pobres gigantes; fizemos a tradicional parada no mirante, de onde divisa-se o Porto de Imbituba e o Atlântico a perder de vista; e descemos para a praia da Ribanceira.
Foi só chegar que elas já estavam lá. Duas baleias, com suas lentas e graciosas evoluções, a poucos metros da praia. Só não vimos outras porque a maré cheia foi soberana, e não avalizou a pedalada a beira-mar; o jeito foi seguir por estradinha paralela, ao largo das dunas da Ribanceira.
Esse caminho dava direto na Barra de Ibiraquera. O Renato foi o primeiro a observar um homem que tentava a travessia.
- Está com água pelo pescoço! – informou-nos, baseado na observação.
Ou o atravessador era uma criança, ou a história de que a água não passava dos joelhos era balela! De fato, a segunda versão era a única que procedia. Havia realmente uma parte mais profunda no canal, que ao todo, considerando também as partes mais rasas, passava de 100 metros de largura.
A bateira azul-calcinha e o barqueiro Buiú
Desviar do canal custaria mais de 10 km, além de um indesejável trecho pela BR 101. Opção descartada. Imbuídos do espírito de navegantes, decidimos procurar por um barco. Tarefa fácil: ali mesmo, no restaurante onde petiscávamos, arranjaram-nos o flutuante. Uma simpática bateirinha de fibra, de cor azul-calcinha, que não passava dos 3 metros de comprimento. Essa valente embarcação deu conta das 11 bicicletas e 11 pessoas!
Foram 6 viagens. Destaque para o capitão Souza, condutor na maioria delas. Eu também dei minhas remadas. Na última travessia, quando fui devolver a bateira, duas senhoritas confundiram-me com o barqueiro local:
- Buiú, que bom que você apareceu! Atravessa com a gente? – disseram elas, cada uma empunhando um drink.
Acredito que as doses de vodka com sprite não permitiram que elas entendessem, quando eu disse que havia uma confusão. Então entrei no jogo e fiz o papel do tal Buiú, levando as meninas e o namorado de uma delas até o outro lado. No desembarque, fui recebido com “aquela” tiração de sarro!
Manhã seguinte, após o primoroso café na pousada Rosa & Canela, recomeçamos a jornada. Pausa na idílica Praia do Rosa, com direito à trilha pelo costão sul, pra contemplar o mar do alto das pedras. Seguindo a pedalada costeira, rumo norte, entramos na praia da Ferrugem pela barra – essa, por sorte (ou azar, pela ausência de aventura??), estava fechada.
No meio da tarde chegamos à cachoeira do Siriú. Com bom ritmo e num caminho plano e sossegado, debaixo de sol ameno e sem vento, seguia ligeira a turma dos intrépidos ciclolitorâneos!
A Lagoa-Coração
O pedal do último dia começa forte. De cara “escalamos” o morro do Siriú, o maior de todo o trecho. Pode ser que você chegue lá levemente esbaforido, mas ver do alto a Lagoa do Ribeirão, formada pelo rio da Madre com desenho de um coração, vai te dar a sensação de que valeu a pena.
Adiante, para driblar a BR 101, a carta na manga é um caminho alternativo na área rural de Paulo Lopes. Ao longo de arrozais, pequenos morros e uma pedreira, a estrada leva de volta à BR, no ponto onde ela atravessa o rio da Madre; dali, é só cruzar por baixo da ponte e apontar outra vez ao litoral.
Na Pinheira voltamos a pedalar pela praia. A faixa de areia é bem larga, ao longo dos pouco mais de 6 km da orla em formato de ferradura. No outro extremo, a Ponta do Papagaio; dali, graças ao bom tempo, pudemos atravessar tranqüilos a baía sul em direção à Ilha, ao largo da Fortaleza de Araçatuba e da Ponta de Naufragados, sobre esguias baleeiras.
Desembarcaram, na Caieira da Barra do Sul, após 3 dias de cicloviagem, os caros e caras protagonistas: Sirlei, Cacá, Joana e Patrícia, Souza, André, Renato, Rodrigo e Carocha, e os guias Jonatha e este escriba que vos relata. Ameaçava desabar um temporal, mas a sorte, eterna companheira, impediu que ele nos alcançasse no trecho final até o Ribeirão. Ali, coroamos com risos, abraços e despedidas mais uma viagem de sucesso e boas memórias.
