Vinhos, vales e cachoeiras

São 10 da manhã de um atípico domingo de julho último, ponteiros na casa dos 20 e poucos graus, com sol a pino banhando as vielas, “linhas” e outros caminhos na região de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. Antes de retornar ao topo do Vale Aurora, cujo desnível de 300 metros havíamos descido há pouco, o pessoal do Olavo Bikers faz pausa pro descanso, enquanto o líder homônimo saca o celular do bolso e faz contato:
– Bom dia amigo, como vão? Vocês são quantos hoje? Cento e trinta? Ah, claro, faltamos nós 9 que estamos aqui pelo Vale dos Vinhedos!
Do outro lado, em São Paulo um membro do grupo faz o balanço de mais um amistoso encontro ciclístico, que reúne a multidão montada todos domingos, para lúdicos passeios pelo sem-fim de roteiros possíveis entre a Fnac e a tradicional padaria que acolhe o grupo no fim de cada jornada.
Durante a semana pelo Vale dos Vinhedos e região de Gramado, os 9 “faltantes” e outros 6 acompanhantes deixaram a saudosa Sampa para aventurarem-se, como fazem regularmente, em algum convidativo roteiro cicloturístico. Na Serra Gaúcha, que, antes de mais nada, é sinônimo de excelência em vinhos brasileiros, conferiram que a lista de visuais vai bem além dos emaranhados de parreiras – sejam elas à moda antiga, espichando-se sobre traves e caramanchões, ou as modernas “espaldeiras”, de plantas lapidadas, produzindo menos e com mais qualidade.
Há também a presença de mata fechada, como no entusiasmante trecho pelo Vale do Rio das Antas. Partindo de Nova Pádua, mais precisamente do Belvedere Sonda – ponto privilegiado para se observar as encostas escarpadas e o desenho do leito na mata -, despencamos 400 metros, em 5 quilometros, até o Rio. Para cruzá-lo pela primeira vez, uma pitoresca balsa que, apesar do exclusivo propulsor com cabine de Fiat 147 e motor de Santana movido a gás de cozinha, moveu-se mesmo graças a um engenho de cabo-de-aço e alavanca manuseado pelo capitão (e auxiliado pelo seu Olavo!).
Na outra margem o caminho é plano, de chão vermelho e batido, assentado entre árvores e ao longo do rio. E ainda melhor: sem qualquer movimento de automóveis, ou seja, sob medida para sossegadas e clássicas pedaladas. Dez quilometros adiante, a segunda travessia do Rio das Antas, desta vez sobre respeitosa ponte de ferro. A jornada ainda galgou de volta o Vale (com subidas que panturrilhas e coxas jamais esquecem, e surpresas como cruzar com um “tipo” a la Radicci, o caricato personagem italiano do cartunista Iotti, e passar por floridos pessegais), cruzou o distrito de Pinto Bandeira e foi consumada na vinícola Cave de Amadeu, na região dos Vinhos de Montanha.
Pra lei-seca nenhuma atormentar nosso pessoal, as degustações ocorreram sempre no fim dos dias, com retorno tranqüilo no microônibus que os acompanha em 100% dos trajetos. Das menores e mais charmosas, como Cave de Amadeu e Don Giovani, às maiores que produzem com grande aparato tecnológico, como Miolo e Casa Valduga, as vinícolas do caminho são excelentes para incrementar os sentidos e familiarizar-se com o divino elixir de Baco. Nos balcões, é possível degustar algumas obras-primas, como vinhos premiados de castas que vieram da Europa e retornam ao continente concorrendo com pesos-pesados mundiais.
A viagem também passou por circuitos vizinhos ao Vale dos Vinhedos, como a Rota do Sabor e os Caminhos de Pedra. Nestes, destaque para El Cantuccio del Pomodori – a casa dos variados produtos à base de tomate, em que a simpática proprietária explica com detalhes as origens daquela rota apinhada de construções de pedra. Também para o Ateliê de Bez Batti, um gênio das esculturas em pedra (com um acervo geológico bastante interessante, incluindo madeiras petrificadas e rochas contendo bolhas d’água fossilizadas), e para a Casa da Erva Mate, que exibe uma arrojada engenhoca movida à roda d’água para beneficiar os galhos da erva.
Já na região de Gramado, para onde nos deslocamos no quinto dia da viagem, o charme e as inúmeras opções de compras fizeram o deleite dos participantes – e, principalmente, das acompanhantes. A partir de Canela – onde nos hospedamos em hotel com exclusiva vista para o Vale do Quilombo – pedalamos até o Parque do Caracol, com vista para colossal cascata de mesmo nome, e para o Parque da Ferradura, onde bandos de quatis recebem os visitantes qual bichos de estimação.
E, como “tudo que é bom dura pouco”, nossos parceiros do Olavo Bikers retornaram a São Paulo após uma semana de excelentes pedaladas, memoráveis jantares, refinados vinhos e o altíssimo astral que já é característico do grupo. Como sempre, atentos ao futuro, já sonham com o próximo roteiro, e sugestões já tem: que tal pedalar pelos fantásticos Cânions da divisa RS/SC, com seus vertiginosos paredões que chegam a despencar de mais de 800 m de altura? No que depender de nós, do grupo Caminhos do Sertão, será mais uma excelente viagem.

Esta entrada foi publicada em relato de viagem e marcada com a tag , , , , , , , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Uma resposta a Vinhos, vales e cachoeiras

  1. Lívia disse:

    lugares maravilhosos por onde vcs passaram, tudo isso regado com vinhos ótimos. Com certeza essa viajem foi uma delicia!!! Grande beijo e forte abraço, saudades….

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *