Ilha e Sertão – peixinho frito, Museu e figuras ilustres

por Fernando Angeoletto


Se preferir, veja o álbum de fotos do evento no flickr.


A pedido de um seleto grupo de Blumenau repetimos, neste último feriado do Trabalho, a cicloviagem pelo roteiro Ilha e Sertão. E como cada viagem, por mais que seja no mesmo roteiro, tenha suas nuances e peculiaridades, com esta não foi diferente.

A primeira novidade foi a parada no rancho do seu Adilson, pai do caro colega Fabinho. Fica lá na Caieira, e haja privilégio: é à beira-mar da Baía Sul, com horizonte de águas e montanhas. Nem é preciso dizer que, em termos de peixes, a abundância é grande. Seu Adilson sabe disso – pesca invariavelmente quase todos os dias, ainda mais agora que pegou férias e não sai mais do rancho! Este simpático manezinho, descendente dos povos mais antigos da região, recebeu-nos com um saboroso “mix”, fritinho na hora: cocoroca, papa-terra, robalo, tainhota – e até baiacu (este me surpreendeu, pensei que somente os mestres japoneses tinha condições de prepará-lo)!

No mais autêntico clima caiçara, foi dali mesmo, no rancho do seu Adilson, que embarcamos para cruzar a Baía. Duas baleeiras deram conta de todo o grupo, e suas bikes. O desembarque foi, digamos, um tanto aventuroso – o mar já começava a assumir seus tons de fúria e, como não há trapiche, o trabalho é melindroso e depende da interação de todo o grupo. Missão cumprida, bonança na seqüência, com a insuperável tranqüilidade de pedalar pelos 8 km da praia da Pinheira.

Zeca do Sertão e o Arante do Pântano

A parte “Sertão” do roteiro foi reservada para o dia seguinte. Antes, a tradicional travessia do Parque Municipal da Lagoa do Peri, pelas trilhas da restinga. E almoço no famoso Arante, do Pântano do Sul. É aquele restaurante dos bilhetinhos na parede, cachaça de graça e uma culinária tipicamente açoriana preparada com o maior zelo. Desta vez, conhecemos ele mesmo, o próprio senhor Arante, dono deste que é um dos mais renomados restaurantes de Florianópolis. Tudo começou em 1958, quando o turismo era palavra desconhecida, e a pequena bodega do seu Arante e sua esposa servia a providencial cachacinha para os pescadores que enfrentavam o mar frio. Depois, passaram a servir um peixinho frito com pirão pra um, uma tainha assada para outro, e por aí foi, até tornar-se essa lenda vida da culinária local que é hoje.

Mas, voltando ao Sertão, a maioria de nossos cicloviajantes optou por subir na caminhada, sobretudo no temível e consideralvemente íngreme trecho inicial, de cerca de 1 km. O final da subida anuncia o Zeca e seu alambique, parada obrigatória para dois dedos de prosa e um dedinho de cachaça. A tarde avança, e é preciso seguir, então o papo nem foi assim tão longo como todos gostaria.

No Museu, um guia ilustre: o senhor Nereu do Vale Pereira

De volta à Pousada do Museu, no Ribeirão, houve tempo ainda para apreciar os últimos raios de sol. De noite, o altíssimo astral Marquinho e sua unida família preparou-nos fabuloso jantar. Faço questão de frisar o calor do atendimento e a qualidade dos pratos – um generoso caldo de frutos do mar, ostras gratinadas e ao natural, tainhas gigantes assadas e outras tão nobres iguarias. O Marquinho tem o dom de lidar com as pessoas, todos por ali são amáveis, e é por isso que a Pousada tornou-se para nós um lugar tão cativo.

E, justiça seja feita (eu não havia falado disso no relato anterior), é preciso contar aos amigos o que há na porção Museu daquela Pousada. O Tour pela história da Ilha de Santa Catarina é conduzido pelo senhor Nereu do Vale Pereira. Doutor em Sociologia, economista e folclorista, contemporâneo e amigo de Franklin Cascaes, o senhor Nereu é uma sumidade em termos da tão rica história local. Sucintamente, explicou-nos alguns fatos mais relevantes da descoberta e colonização da Ilha, a partir do século XVI. Depois, apresentou-se nos o acervo do Museu, abrindo janelas ao passado e ao cotidiano dos antigos moradores do Ribeirão, que é sem dúvida o núcleo habitacional mais antigo de Florianópolis. Destaque para uma caixa de música e um gramofone, em perfeito funcionamento (já havia visto vários, mas nunca funcionando).

Para finalizar, sem esquecer da menção aos nossos ilustres participantes (Norberto e Lúmen, Mariela e Rafael, Fabinho, Alessandro, Pereira e Ana, Martinha), gostaria de assinalar a presença de duas figuras raras:

– Wilberto Boos – esse eu já havia mencionado no relato anterior, mas não custa reforçar, é umas das pessoas mais apaixonadas pela Bicicleta e pelas Cicloviagens que eu conheço

– Sr. Eldon Jung – há pouco mais de 10 anos, esse ilustre senhor, hoje à beira dos 70 anos, redescobriu a bicicleta. De tudo de bom que ela pode nos trazer, ele repeta aos quatro cantos o poder da serotonina. “Pedalar libera serotononina, é o hormônio da felicidade, quem pedala é mais feliz.” Corretíssimo, seu Jung! Mas a ligação com a bici não pára por aí: em sua indústria, em Blumenau, todos os funcionários são estimulados a trocar de transporte, através de um bem elaborado programa para o uso da bicicleta. Além do mais, Eldon Jung é um incansável batalhador pelo uso urbano da bicicleta, e um dos maiores divulgadores e articuladores do Cicloturismo em nível nacional.

Aos queridos leitores, um grande abraço e até a próxima!

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3 respostas a Ilha e Sertão – peixinho frito, Museu e figuras ilustres

  1. Fábio disse:

    ae galeraaa, valeu mais uma pedalada, sempre um prazer pedalar aqui pela minha “casa”. A ilha da magia de fato é um local belo e poder contemplar a sua beleza sentado numa bike realmente não tem preço.

    quero agradecer a parceria que estou formando com a galera CdS, e a possibilidade de conhecer pessoas e amigos novos.

    um abraço ao ale, fernando e tantos outros que ajudam a deixar a pedalada muito agradável e descontraída.

    deixo aqui então um peixe frito, um martelinho de pinga e, claro, um cordial abraço aos ciclopedalantes

  2. norberto e lumen disse:

    Conhecemos o pessoal do Caminhos do Sertão em Urubici (Carnaval 2009). Sabem tudo da região e dão total suporte ao pessoal do pedal. (iclusive quem não pedala muito…) Em Floripa tivemos de tudo: peixe frito do seu Adilson (com cervejinha gelada), travesia de baleeira, pedal da Pinheira até Guarda do Embaú, pedal costeando a Lagoa do Peri, Pântano do Sul, e o terrível morro do Sertão do Perí ( mas vale a pena). Para terminar o pedal pelo Campeche até a Barra da Lagoa, e aí infelizmente o passeio terminou…
    Boos e Seu Eldon, companheiros de jornada, são figuras ímpares em assuntos de pedal e ciclovias. Além de apaixonados são conhecedores do assunto.
    Ao Jonathan, Fernando e equipe da Caminhos do Sertão, aquele abraço e até a próxima.

  3. Alessandro disse:

    Salve amigos do pedal, este foi mais um memorável passeio com pessoas adoráveis e por lugares maravilhosos.

    Mesmo já conhecendo os lugares, percebo o quanto é nova a sensação de percorrer estes caminhos pela ótica da bike, é algo muito diferente e realmente percebemos mais dos ambientes ao pedalar. Melhor ainda é poder conhecer pessoas especiais e ter este companhia para tornar o passeio muito gratificante.

    Creio que mesmo refazendo estes percursos, sempre iremos curtir mais e mais e ampliando nossa percepção destas paisagens, uma constante descoberta do prazer de pedalar, e também as novas amizades.

    E belas amizades vão se formando a partir destes pedais com o CdS, a equipe é muito especial, grande abraço para o Fernando, Jou, Martinha, Ilustre Pereira e Alexandre. E para os participantes que ao pedalar juntos parece até formar uma família, em poucos quilometros já acontece a magica natural da integração e todos ja saem compartilhando as sensações do passeio e com muita diversão.

    O super Fabio é uma destas amizades que surgio em cicloviagens, e no caso o Caminhos Alemães do CdS. O Fabão me recebeu em sua casa na bela Caiera, la no sule da ilha ô! O seu pai o seu Adilson é outra pessoa de grande coração e que prepara o peixinho frito maravilhoso, um agradecimento todo especial a toda família dele que estavam presentes nestes dias.

    Cicloabraços e até outros pedais.

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