Acolhidos em Urubici

por Fernando Angeoletto

Já me foge à memória a contagem de vezes em que estive em Urubici (desde a primeira, há 10 anos atrás, pra pedalar de lá até Floripa com o parceiro Dudu).

Nessas tantas idas ficamos nas mais variadas hospedagens, todas elas de altíssimo astral e aconchego.

Mas nada se compara a ficar, como fizemos nesta última vez, em uma Pousada de família de agricultores. Não foi aleatória a escolha da Pousada Arroio da Serra, vinculada à Associação Acolhida na Colônia. Passa pelo nosso propósito de cada vez mais alinhar as correntes do turismo de aventura aos processos de desenvolvimento regional, sobretudo à iniciativas sustentáveis e socialmente justas.

Ao ampliar o leque de oportunidades de renda, famílias como a do sr. Eraldo e Terezinha Souza, que nos receberam de um modo em que o termo Acolhida faz todo o sentido, estimulam-se a permanecer no campo e cuidar da terra através das práticas agroecológicas. Deste modo, respeitam os ciclos naturais e a harmonia com o ambiente, produzindo alimentos livres de veneno e tendo a oprtunidade de oferecê-los aos próprios hóspedes.

Se isso ainda não for o suficiente para atrair os visitantes, deve-se dizer que as acomodações são confortáveis e aconchegantes, num clima rústico de ambiente rural, mas com tudo zelosamente preparado até para os hóspedes mais exigentes. As refeições em fogão de lenha são feitas ali mesmo, aos olhos do visitante; além de inebriar-se com os aromas, é possível obter preciosas dicas da dona Terezinha sobre o entrevero, típica iguaria serrana à base de pinhão, ou outra de suas fabulosas receitas. E tem mais: o mesmo fogo que cozinha os alimentos aquece o sistema de água dos chuveiros, num projeto eficiente que garante ótimos banhos mesmo no frio de Urubici.

Mas é claro que o nobilíssimo leitor está aqui também para saber sobre o relato da pedalada. Sobre esta, digo que percorremos caminhos nada óbvios pela região, aproveitando a localização da Pousada, que fica a 10 km do Centro na direção de Rio Rufino. De lá, seguimos bordeando o Rio Canoas pela margem direita, até encontrar o asfalto já numa das últimas descidas da Serra do Panelão.

Derivando ao Caminho do Invernador, evitamos boa parte da estrada que liga Urubici ao Corvo Branco, além de passar por trechos extremamente sossegados e ao longo de belas florestas de araucárias. De volta à estrada geral, em plena obra de asfaltamento, alguns trechos com lama foram inevitáveis. No meio do trajeto uma parada estratégica da Família Beckhauser, também pertencente à Acolhida na Colônia, para um farto lanche com produtos coloniais.

A pedalada seguiu com seus animadores oficiais, os colegas Adilson e Marcelo (que conheceram-se nessa viagem, afinando-se de imediato nos repertórios de piadas, que despachavam sem dó perante o pelotão – alguns atônitos). O ápice da gozação ocorreu quando o Zé, nosso motorista, ofereceu ao Marcelo um “sorvete -seco” com bexiguinha (daqueles cones de sorvete com maria-mole cor de rosa, artefatos do arco da velha que só se encontram nos butecos dos confins). Marcelo de pronto aceitou o presente e, tão logo o devorou (e foi rápido mesmo), tratou de encher a bexiguinha e colocá-la de ornamento em sua magrela, arrancando risos das testemunhas.

Mas voltando ao pedal, seguimos firmes com guidões no rumo do Corvo Branco, mesmo com o peso de nuvens que passou a dominar a paisagem. Lá chegando, no paredão rasgado em rocha do alto do Corvo, nada mais que uma densa cortina branca estava disponível aos olhos. O jeito foi apressar-se à guarda as bikes na carreta, montar no microônibus e zarpar de volta à Pousada.

A noite foi daquelas em que melhor se consegue dormir: embalada à muita chuva. De manhã restavam apenas alguns pingos, mas o lamaçau não animou o povo. Saímos para passear de ônibus. O consolo foi ver a majestosa Cascata do Avencal por cima, despejando suas águas em 100 metros de queda.

Retornando à Pousada, a despedida foi o almoço feito pela dona Terezinha e sua família (incluindo uma estupenda massa caseira, feita na hora). Despedida com gosto de “até logo”: em novembro estaremos lá, para nossa saída “Urubici Plus”, de 4 dias, com direito à travessia do Parque Nacional de São Joaquim. Faltam menos de 3 meses para outra aconchegante experiência de Acolhida e pedaladas pela região serrana (e as bênçãos de São Pedro, se todas as conjunções astrais colaborarem!)

 

 

 

 

Veja as fotos da viagem

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2 respostas a Acolhidos em Urubici

  1. eae pedalantes…
    Bom, todo este relato e nenhuma da referida iguaria? Voces ja foram melhores, esta faltando a devida ilustraçao do furo jornalistico….
    Infelizmente nao estarei nos proximos pedais, em setembro vou encarar o Audax 300 juntamente com o tio Pereira…Vai ser punk, mas….
    Em Setembro to de férias, vou pra onde o vento apontar…

    É bom encontrar pessoas com este espírito de amizade em cada pedal, muitas risadas independendo se o pedal rolou, se o clima tava bom, se todo o planejado veio abaixo…O importante é curtir o momento….

    Se alguem quiser conhecer Red Foot city será bem vindo, rola um city tour com direito a Costelinha e domingueira de rock no Tribos…Se voce curte um sertanejo, fique por ai mesmo…aqui ja temos demais..hehehe

    Cicloabraços a todos e muito sorvete seco!!!

  2. Dilmo disse:

    É gratificante acolher pessoas de alto astral. Nos sentimos honrados em poder colaborar para realização deste passeio em nossa terra. E o melhor é saber que tudo pode se repetir logo.
    Um abraço
    Dilmo / Terezinha / Eraldo

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