Relato de Luiz Carlos Pereira (foto) sobre o treino para o Audax 300
Não é fácil sair de casa, numa sexta feira à noite, montado numa bicicleta, para fazer uma pedalada, que tem como proposta tomar o café da manhã seguinte em Blumenau, retornando à casa para o almoço. Supostamente, um trecho com 310 km de duração, ou extensão, para ser mais preciso.
Como eu não preciso de muita coisa para ir e vir, aonde e quando eu decidir que é hora, quando chegava a hora da partida, tanto a Ana, minha esposa, como o Chico, meu melhor amigo, perguntaram se eu estava na plenitude das faculdades mentais, visto que encarar aquele desafio, sozinho, parecia uma coisa um tanto sem sentido.
Mesmo sentindo uma certa saudade, a partir do primeiro minuto de jornada, segui meu caminho pelo único rumo possível, para cumprir a proposta aprovada. Avenida Pequeno Príncipe, no Campeche, seguindo pelas rodovias e avenidas da Ilha, até alcançar a Ponte Colombo Machado Salles, que liga a Ilha ao resto do Brazil varonil. Ali, pelo adiantado da hora, já era previsto uma encrenca, visto que a perspectiva de passar pela passarela, embaixo da ponte era simplesmente inviável. Diante disso, a ausência das viaturas policiais, na cabeceira insular, é sempre uma aposta. Quando presentes, tem sempre aquela conversa chata, que se resume na tentativa dos policiais de evitar a travessia nas pistas de rolamento. Quando lá cheguei, vi a faixa da direita bloqueada por cones, para proteger uma equipe de manutenção da ponte. Huli Huli…. Passei batido.
Seguindo pelos Estreitos Unidos, Barreiros, Serraria e Biguaçu, curti no trecho a saudade da minha infância e juventude, quando pedalava, com frequência, por pura descontração. Agora, a animação do último boteco aberto, na cidade vizinha, me apresentava à BR 101, escurecida, e seu acostamento com muitos pedriscos e cacos de vidro. Nessas horas, o farol importado, com dínamo e lanterninha traseira, resolvem piscar, com algumas apagadas, que só se resolviam com um tapa no dispositivo. Belo começo, pra quem tinha uma noite inteira pela frente.
A partir do vale do Rio Biguaçu, uma forte neblina passou a me acompanhar, fazendo com que a Lua, de quarto crescente, ficasse encoberta, tornando a viagem mais solitária e nebulosa. Nem a sombra me fazia companhia. Em contrapartida, a camisa, o moleton, o calção e a meia se encharcavam, começando a provocar calos nos pés, pela adaptação à sapatilha nova, e zonas de assaduras, na região de contatos com o celim e virilha. Ai que saudade do hipogloss…
A passagem pela Policia Rodoviária não foi muito amistosa, mas sem nenhuma obstrução. Apenas aquela vontade de parar, pra recompor o estômago, com uma porção de granola, com um café quentinho. A cada posto de combustível fechado, mostrava que o avançado da hora só aumentaria, até o fim da primeira perna da viagem, que era tomar café na terra do chope. Por isso, a chegada ao Posto do SOS Usuário da BR 101 privatizada, foi comemorado silenciosamente. Entrei, sem dar sinal no alarme, tomei água, café, fiz xixi, lavei o rosto, sem que houvesse aparecido alguém pra perguntar o que eu estava fazendo ali. Eram duas horas e vinte e seis minutos, quando eu entrei. Fiquei ali cerca de uns vinte minutos, o suficiente para consertar o fio do farol, que estava sempre se soltando e apagando.
Segui, animado e calado, só parando no outro ponto de apoio da rodovia, mas nem quis saber que horas eram. Só me importava o fato de faltar apenas uns 60 km para o fim do trecho e a mudança de rodovia, que, naquela hora, não estava muito movimentada. Ao contrário, os poucos veículos que passavam não eram suficientes para gerar qualquer interação. Apenas um facho rápido de luz, e o sumiço na escuridão. Na segunda parada, a porta automática se abre, sinalizando com um som a presença. Com isso, o socorrista de plantão veio me receber, anunciando que havia café fresco na cozinha. Uma breve prosa, para avaliar a viagem durou o tempo necessário para evitar que o corpo esfriasse, seguindo meu destino, tendo como companhia a madrugada e a neblina.
A partir da SC 470, sem ter mais nada para fazer, passei a ler a marcação no asfalto, com a quilometragem: 4 + 200, 4 + 600, 5 + 200, 5 + 400, 5 + 600, 5 + 800, 6, e assim por diante, até chegar a Gaspar, quando a rodovia dá lugar às ruas urbanas, trazendo de volta as luzes e um posto de gasolina, com uma loja de conveniência atendendo aos últimos perdidos na noite. Tomei um isotônico, uma coca cola, um guaraná, acompanhados de um saco de pipoca bilu, que era a única coisa que havia para comer. Segundo o rapaz que me atendeu, faltavam apenas 16 km, para chegar na Beira Rio, a avenida mais famosa de Blumenau.
Depois do lanche, segui meu caminho, passando pela frente de uma fábrica de fios de algodão, quando os funcionários trocavam de turno de trabalho. Dali para adiante, era mais visível a presença de seres humanos na rua, a maioria de bicicleta, indo ou vindo do trabalho. Logo apareceu o Estádio do SESI, anunciando Blumenau, iluminada pelos primeiros raios da manhã. Quando cheguei a um bar, na Rua Quinze de Novembro, o proprietário já estava lendo os jornais, e me informou que faltavam cinco minutos para as seis horas. Sentei, pedi um suco de laranja, um café expresso com leite e uns pães de queijo. Comi uns três, eu acho.
Ao tirar o abrigo corta vento, percebi que o moletom, a camisa de lã e a camiseta de malha de algodão estavam completamente encharcados. Pedi ao dono do bar parte de um jornal, colocando-o entre a camiseta e a camisa de lã, substituido o moletom por uma outra camiseta de malha, de manga comprida, para evitar a hipotermia. O corpo já começava a tremer, pelo frio e umidade. Nada agradável, principalmente por ver que o sol não saía com toda força, ao ponto de secar as roupas. Assim que cheguei, liguei para o Alessandro, que estava me esperando, para cumprirmos o segundo trecho do treino, que era a volta pra casa o mais rápido possível.
A volta, acompanhado, foi muito mais animada e divertida. Apesar do desconforto de andarmos em fila indiana, era possível estabelecer um papo, ao mesmo tempo que procurávamos os melhores trajetos, entre calçadas esburacadas e acostamentos cheios de tranqueiras, olhos de gato, tartarugas e afins, sem contar com os sempre presentes pardais de controle de velocidade, na maioria das vezes desligados, mas que têm um estreitamento de acostamento, nem sempre muito convidativo para as bicicletas. Nenhum trecho de ciclovia, ou coisa parecida. Apenas surpresas e buracos. Mesmo assim, o trecho ia sendo percorrido, com ritmo e raça. Paramos para um novo café, na chegada a Itajai, acompanhado de sanduiche e coca cola.
Até a nova parada, no posto de apoio da BR 101, pouco se conversou, pois raramente o acostamento permitia pedalar emparelhado. Apenas seguíamos adiante, com um pé em cima e outro embaixo. Apenas o tempo seguia, enquanto nós vencíamos a distância. Mais uma parada, para uma água de coco e um caldo de cana, junto ao Posto da Polícia, em São Miguel, fechando o trecho onde nos despedimos, no Estreito, quando o hodômetro do Alessandro marcava a marca de 168 km, por volta de uma e meia da tarde. Dali pra adiante, segui, sozinho, o resto que me tocava, até chegar em casa, no Campeche, às quinze horas e trinta minutos. Completava, assim, um percurso que totalizaria cerca de 380 km, em dezoito horas de pedalada.
Não preciso nem dizer que após o banho, caí na cama, só acordando no domingo, por volta de seis da manhã, quando comecei a analisar os resultados físicos. Mãos dormentes, dois enormes calos, na sola e no dedo mínimo, do pé direito, uma enorme assadura na virilha, outras tantas no traseiro, e uma certa dificuldade de caminhar. Para minha felicidade, quando fui pegar a bicicleta, para acompanhar meu amigo chico até a praia, onde tomamos uma cerveja pra comemorar, percebi que o pneu traseiro estava vazio. Um pequeno fio de aço daqueles que se despreendem dos pneus dos carros, estava ficando no meu, que se manteve cheio pela pressão do peso do corpo. Mais feliz em fiquei, quando consertei o pneu, foi quando percebi que minha bomba não conseguiria enchê-lo, pois recentemente troquei de aro, que deixa o pino bastante enterrado, sem que a bomba consiga abrir o bico. Fico imaginando como eu ficaria sem graça, tendo que empurrar a bici, na rodovia, sem condições de trocar e consertar, caso houvesse um furo na viagem.
Com mais esta brincadeira, creio que esteja pronto para encarar o próximo desafio, de 300 km, em Criciuma, nos dias 5 e 6 de setembro, quando esta proposta de pedalada de repetirá, agora ‘oficialmente’. Pelo menos, consegui testar a distância proposta pelo Audax, completando o percurso no tempo esperado.
Pedindo desculpas pela extensão do relato, quis compartilhar esta experiência com alguns amigos, agradecendo especialmente meu camarada Alessandro, que botou fé na brincadeira e estava em Blumenau na hora certa, para que minha viagem não sofresse uma pausa na continuidade.
Huli Huli
Pereira