Arquivo de setembro de 2009

Ainda é tempo de pedalar pelo Vale Europeu !

terça-feira, 29 de setembro de 2009

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Caminhos do Sertão vai antes, pra você ir melhor! Clique na foto acima e veja álbum do nosso último levantamento feito no Vale Europeu, selecionando os melhores trechos para o cicloturismo, priorizando visuais e tranqüilidade.

Quer viajar também? Ainda há vagas, mas não perca tempo!

Os atrativos:

  • Cachoeira do Zinco
  • Cachoeira Véu de Noiva
  • Barragens Rio Bonito e Pinhal
  • Municípios: Rio dos Cedros, Doutor Pedrinho, Timbó
  • Casario em estilo enxaimel
  • Vales, rios, montanhas e redutos de Mata Atlântica

Veja todos os detalhes na página do pacote.

Boa viagem !!!

Mitos e fatos do Dia Sem Carros

sábado, 26 de setembro de 2009

Dia Sem Carro Floripa - Car Free Day por Caminhos do Sertão Cicloturismo.

Pausa para foto oficial durante o Pedal Unificado, que lotou as ruas do Centro na noite de 22/09

No geral, há uma certa hipocrisia no que diz respeito  ao Dia Sem Carros em Florianópolis. Os jornais teimam em dizer que ninguém dá a mínima bola pra ele, dando-lhe um ar de fracasso. Alguns leitores comemoram, dizendo que esta cidade “cheia de ecologistas” é uma fachada, um rótulo sem valor, posto que a sensação naquele 22 de Setembro nublado era de que o trânsito na cidade, ironicamente, estava ainda mais caótico. E assim, repetindo o eterno arquétipo de Pilatos, lava-se as mãos de todos.

O que não se discute é a omissão da prefeitura que, ao invés de aproveitar a data para uma séria discussão sobre a mobilidade, promovendo campanhas e apoiando eventos, limita-se a uma mera e inexpressiva distribuição de panfletos. Outro lamentável “detalhe”, conforme lembra a diretoria da Viaciclo, é que a imprensa ignorou os releases e não divulgou a programação alternativa realizada na cidade.

A data passaria em branco, não fosse a importante atuação de ONG´s, escolas e outros movimentos organizados. Não se pode ignorar, como os jornais fizeram, eventos como a Pedalada do Campeche, que tem de fato caráter educativo e mobilizou centenas de pessoas. Ou o Pedal Unificado, que embelezou as ruas do centro com um pelotão grandioso, de pedaleiros dos grupos organizados da cidade. Tudo pra repensar a inquietante questão do homem e de sua armadura de ferro de 1 tonelada, que tantos danos causam à cidade e seus viventes.

Veja mais: Canal da Viaciclo no Youtube, com cobertura da Pedalada do Campeche e clipagem das matérias sobre o Dia Sem Carros

Excelente reportagem da Revista Época, discutindo as Cidades Sem Carros ao redor do mundo e o que falta para elas acontecerem no Brasil

Matéria  sobre o novo sistema de aluguel de bicicletas em Blumenau, no blog  Bicicleta na Rua

.: Clique na foto para ver o álbum – Pedal Unificado Dia Sem Carros 2009

_ por Caminhos do Sertão Cicloturismo.

Dia sem Carros 2009

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Pedal do Dia Sem Carros em Floripa (2006)

Pedal do Dia Sem Carros em Floripa (2006)

Peadesivo_eu_vou_de_bici_peqrgunte pra qualquer um de Floripa qual é o maior problema da cidade atualmente. O trânsito e suas facetas mais perversas possivelmente será a resposta. A Imobilidade Urbana  já não é mais teoria e nem um porvir, é uma realidade cada vez mais agravada por omissão política, que culmina em facilidades aos deslocamento de carros e obstáculos ao transporte público e ao uso da bicicleta.

Não é apenas um dilema nosso, em qualquer cidade de médio e grande porte no mundo essa questão é uma pedra no sapato de todos que deslocam-se no ambiente urbano. Por isso mesmo, não é de hoje que respostas organizadas a esse problema articulam-se em esferas mundiais, tendo como uma das principais bandeiras o Dia Sem Carros, que convoca os cidadãos de todos os cantos do planeta a deixarem, ao menos neste dia, o carro na garagem.

Em Floripa a data não é mera ilustração, há uma programação em toda a cidade (que, na verdade, estende-se do dia 18 ao dia 25), envolvendo debates, panfletagens, exibição de filmes e pedaladas – veja a programação completa no site da Viaciclo – Associação dos Ciclousuários da Grande Florianópolis.

E na noite do dia 22/09 haverá o Pedal Unificado, envolvendo os vários grupos de pedalada que reúnem-se semanalmente na cidade. Convidamos todos a comparecerem às 19h na Loja Biketech (Av. Madre Benvenuta, 1012, próximo ao Shopping Iguatemi, fone 3228-1824). De lá, partiremos para encontrar toda a turma do Pedal Unificado, no trapiche da Beira Mar.

Veja também: programação do Dia Sem Carros em Blumenau (site da ABC Ciclovias) e Joinville (site do Pedala Joinville)

Tainha à unha e Bijajica: vida Caiçara na busca às Baleias (cicloturismo Litoral Sul 2009)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

por Fernando Angeoletto

Viajar à beira-mar tem seus poréns. Flagrar revoadas de gaivotas, acompanhar os contornos de espumas que as marolas desenham na areia, zanzar livremente sem a maldita pressão de buzinas é o que sempre se espera, e o que realmente há de sobra. Porém, há as barras. Descontinuidades no caminho, encontros de rio e mar que impõem a pausa, ou uma travessia improvisada.
Temporada das Baleias por você.Já havia comentado o assunto no relato Mar, lagoas e o barqueiro Buiú, da viagem pelo mesmo roteiro que fizemos em 2007.  A Barra de Ibiraquera é incerta: rompe, à força de temporais mais impiedosos; rompe, à força das máquinas que escavam a areia, num ato pela renovação das águas da Lagoa. Aberta, a Barra é um canal de água salobra com pouco mais de 100 metros de largura, raso demais para um barco de porte médio, fundo demais pra evitar que a travessia carregando uma bicicleta nas costas não seja uma verdadeira encrenca molhada.
Então, a solução adotada agora foi a mesma de 2007: acomodar as bicis na simpática bateira azul-calcinha, manusear o bambu-propulsor, e fazer tantas viagens quanto fossem necessárias para cruzar as 17 bicicletas e seus respectivos 17 condutores.
Tarefa melindrosa, mas nem tão difícil assim. Difícil mesmo foi desencalhar o barco da travessia Ilha-Continente, contra lufadas do vento nordeste impiedoso, no último dia da jornada. Mas isso é assunto para mais além.

Procurando Baleias

Deixamos Itapirubá no início da tarde de sábado. Motivo aparente: ver baleias. Motivo real: tentar ver baleias, enquanto se pedala em grande estilo por caminhos litorâneos e cuidadosamente selecionados, de modo a priorizar a contemplação e o alto astral. Diz o Jonatha, nosso guia e navegador, que avistou um simpático cetáceo lá da praia da Ribanceira, no meio do burburinho de um campeonato de surf. Mas, estando por último, não teve tempo de avisar o grupo. Fora isso, nenhum relato de visualização das gigantes.
Porém, condizente com o verdadeiro espírito “tentaremos ver baleias” desta empreitada, entramos pela Praia do Ouvidor no domingo. Um caminho sem saída, não fosse a originalíssima travessia pelo Projeto Gaia Village, disponível para poucos. Quatro quilômetros de pura beleza, atravessando dunas, restinga, um rebanho de bubalinos e áreas de recuperação ambiental.

O trecho, todo ladrilhado, termina na sede do Gaia Village. Ali fomos recepcionados pelo Donizete, que gentilmente nos fez uma apresentação dos princípios e atividades cotidianas do Projeto. Reserva particular que abarca variados ecossistemas litorâneos, os 900 hectares são preservados e recriados conforme o anseio dos proprietários, baseados no legado de José Lutzenberger, um dos mais ilustres ambientalistas brasileiros (falecido em 2002).

Ciclista caiçara pega tainha à unha

Da sede do Gaia rumamos à outra Barra, desta vez no canto sul da Ferrugem. Água pelos joelhos, bike nas costas, uma a uma. Numa das travessias uma tainha roçou minha perna; um ímpeto primitivo baixou sobre mim. E então, já que o interesse pela fauna marinha era grande entre os pedalantes, peguei a tainha à unha, para descrédito geral. A brincadeira custou-me uma mergulhada da câmera fotográfica em água salobra, além dos apelidos de Caiçara, Pescador e assemelhados. Para os curiosos: a câmera voltou a funcionar (ao menos por enquanto). Para os preocupados: a pobre tainha foi devolvida ao mar.
Depois da breve passagem pelo centro de Garopaba, seguimos ao Siriú, alongando o caminho com o contorno da Lagoa do Macacu. É um trecho ainda mais tranqüilo que o usual, com visuais privilegiados que as “morrebinhas” curtas e inclinadas proporcionam. Chegando à Pousada do Taxo nossa trupe, não satisfeita em esperar o farto jantar que se anunciava, resolveu celebrar a vida aos petiscos de um “surraxquinho” de lingüiça. Ponto para o Davi, nosso colega chileno, que não só providenciou a matéria-prima como comandou a churrasqueira.

Curiosos (e saborosos) quitutes no Engenho

O Morro do Siriú marca o início do último dia, como o aclive mais forte de toda a viagem. Após vencê-lo, e admirar do alto a vasta planície costeira, rumamos ao interior, nosso Sertão. Parte dos costumes camponeses pudemos provar na calorosa recepção das irmãs Maura, Vilma e Inácia, que mantém um dos poucos engenhos artesanais de mandioca na região. Ambientada no galpão rústico, entre rodas de moagem, prensas e tachos, repletos de bijus quentinhos e fumegantes, a mesa posta era o verdadeiro amálgama das culturas indígena e açoriana.
Irmãs e a matriarca por você.Você conhece a bijajica? É a massa da mandioca, misturada à pedaços de amendoim e especiarias, e assada em vapor. Uma perdição. E o nego deitado? É um preparado à base de fubá, envolto em folha de bananeira e assado. Preciosa iguaria. Fora as bolachinhas, bolo de milho e tapiocas que as Irmãs serviram com abundância. O trabalho delas é reconhecido como um importante resgate cultural pela gastronomia, fato que chamou a atenção do Slow Food, movimento ao qual recentemente integraram-se.
Engana-se quem pensou que o Morro do Siriú fosse o maior desafio. Imprevistas, as lufadas de vento Nordeste complicaram o percurso de 8 km na Praia da Pinheira. O açoite das rajadas, evidente na areia fina que corria baixo feito névoa na praia, foi duro. Ao final, um embarque tão duro quanto, para atravessar a Baía Sul de volta à Ilha. Maré vazante, contraposta ao vento forte levantando ondas, e nosso valente barco abarrotado de bicicletas resolve encalhar na areia. Foram necessários muitos braços e disposição, além da inestimável contribuição de dois motoqueiros que passavam por ali, para mover o bólido.
Ao final da travessia encerramos a viagem – o tempo fechou bruscamente, sinal das tormentas que assolaram o Estado justo naquele dia. Das Baleias levamos as lembranças, e o porvir de um dia quando talvez elas resolvam vir ao nosso encontro. Do belíssimo Litoral sul, das experiências ambientais e culturais, de todos os seletos caminhos percorridos e das amizades conquistadas lapidamos jóias em nossas memórias, tesouros de viajantes em nossas vidas.

Temporada das Baleias por você.

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Bike Tech Floripa é reaberta

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Erni já é bem conhecido na cidade. Firmando parceria com o Adilson Fernandes (participante de várias viagens Caminhos do Sertão), ambos estruturaram a nova Bike Tech, reaberta ao público na última sexta (04/09). A loja fica bem pertinho do Shopping Iguatemi, na Madre Benvenuta (Santa Mônica). O fone é 3228-1824.

Veja a galeria de fotos!

Levando a alma pra passear: 300 km com morrebas no Audax Carvão

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Pereira em sua Pegeout com faróis alimentados por dínamo: em breve mais 400km!

por Luiz Pereira;  grifos livremente selecionados por Fernando Angeoletto

O relato que se segue apresenta o resultado perceptível do que foi pedalar os 300 km que justificaram o treino teste realizado na semana passada, que nesse momento parece tão distante quanto agora são as dores sofridas durante as duas experiências. A difícil tarefa do corpo de levar a alma pra passear, proporciona-nos sensações prazerosas, que só são sentidas no momento vivido, virando boas lembranças imediatamente ao término da empreitada, e uma sedução para seguir em busca do outro limite de desafio, que são os 400 km.

Na condição de cicloerrante, com a conhecida aptidão física e tática, montado num equipamento bastante rudimentar, não me propunha a percorrer o trecho acompanhando meu amigo e estimulador Della, que chegou entre os quatro primeiros, mas dentro do limite de tempo que é destinado aos que querem enfrentar o desafio, na modalidade e faixa etária do cicloturismo. Enquanto o ilustre completou a prova em doze horas, eu o fiz em dezoito, no mesmo padrão do Audax 200. Daquela vez, pelas condições do terreno, a minha média foi um pouco maior.

Para quem ainda não conhece, o Audax tem como proposta o desafio de vencer as distâncias num tempo determinado, sem a exigência do rigor da prova. No caso do Audax 300 do Carvão, a organização elevou ao máximo o limite. Dos trezentos quilômetros, duzentos eram de estradas com lombas e serrotas, que exigiram um esforço adicional às canelas e juntas, uma paciência a mais no momento da experiência. Isso só aumentou o prazer de curtir.

Saímos de Criciuma às 23 horas, percorrendo os primeiros quilômetros com um carro batedor, num bloco bem concentrado, numa velocidade bem excitante. Duas motos policiais acompanhavam o cortejo, interrompendo o trânsito dos automóveis à nossa passagem. Depois disso, quando saímos do ambiente urbano, cada um seguiu no seu ritmo, vencendo as montanhotas e subidinhas, até o primeiro Posto de Controle, na cidade de São Ludgero, a uma distância de uns oitenta quilômetro. Neste trecho, vi algumas pessoas ficando para trás, por pneus furado e problemas mecânicos. Lentamente eu ia encostando em alguns pequenos grupos, que iam ficando para trás, por abandonarem o pelotão de frente, que era composto por atletas e jovens, como o meu amigo Della, que só não chegou antes dos primeiros quatro, porque parou algumas vezes para repousar sentado no Celite, graças ao jantar no rodízio de pizza, onde Ele, o Evando e o Marcelo, companheiros de jornada, deliciaram-se nos vários sabores da gloriosa massa. Os outros dois, tiveram a brincadeira interrompida, pela mesma perturbação gástrica.

A chegada em Tubarão, às cinco e meia da matina, coroava a etapa noturna, trazendo a luz do Sol, para melhorar a visibilidade da paisagem e da estrada. Voltamos à cidade de São Ludgero, onde fomos recebidos com uma deliciosa canja de galinha caipira, que além da carne tem as vísceras (coração, fígado) e óvulos, retirados dos ovários de galinhas poedeiras. As bolotas parecem batatinha, e a gente enche o prato, só percebendo a diferença ao provar. É uma turbina proteica, excelente para proporcionar energia para vencer a etapa mais extenuante.

Subimos a Serra do Rio do Rastro, a uma altitude de 760 metros, num trecho de cinquenta quilômetros praticamente só de subida. Esta brincadeira começou no início da manhã, durando até meio dia, quando cheguei ao topo do sacrifício. Quando me disseram que faltava apenas uns seis quilômetros, minha alma já tinha saído do corpo, e a sombra zombava da minha cara. Parei umas cinco vezes, pra me entupir de gel sei lá pra quê, barrinha de isotônico, banana seca, castanha de caju, uvas passas… até água eu tomei, neste momento de quase desistir. Doeu até a última prega, quando olhava para o horizonte, e fui ultrapassado por uma das três meninas participantes, e ouvi o ‘vamo tio….’. Na última tentação sentida pelo corpo, de pensar em não chegar, fui alcançado pelo Pedrão, um curitibano de 71 anos, que xingava a mãe de todos os organizadores, e algumas ancestrais mais pregressas. Ao final, tudo se transformou em alegria, animando o trecho final, que não poderia ser pior do que isso.

Os últimos cem quilômetros são sempre marcados pela perda do ânimo físico, mas o aumento do moral. As dores vão aparecendo, a carne vai ardendo, mas a alegria de ver o trecho diminuindo serve como um elixir, que ajuda a lubrificar as juntas. Ao mesmo tempo, o peso do alforge vai diminuindo, pois o estoque de comida vira suor, que vai ficando pelo caminho. Foi graças ao poder de transformação da canja com ovo cozido em metano, que a potência do pedalar cresceu. Cada pum exalado equivalia a uma pedalada. E não foram poucos, durante toda a manhã. O trecho da última tarde foi um pouco mais plano, mas com muitas lombas bastante extensas até a sua totalidade. Para finalizar a brincadeira, o trânsito urbano, a falta de orientação para chegar ao objetivo, e a companhia de apenas dois novos companheiros de empreitada, com quem me juntei nos últimos quilômetros, fizeram o complemento das emoções, que só a endorfina pode proporcionar.

Daqui de Florianópolis fomos juntos seis ciclodementes. Além do Della e do Evandro, o Jorge, nosso ilustre representante internacional, que sofreu pela derrota da sua seleção pela turma do Dunga, mas chegou bem antes que eu, e o Ronaldo, com quem pedalei praticamente todo trecho, junto o Gilmar, um ilustre camarada de Balneário Camboriu. Em grupo, conseguimos nos manter mais fortes, seja para melhorar a visibilidade, ou para compartilhar conversas e animações.

Apesar do rigor da prova, só tenho a registrar cumprimentos à organização, pela disponibilidade e animação da equipe, o que sempre contribui para o sucesso da empreitada. Vou me preparar para os 400 km, pra ver onde é meu limite nessa brincadeira. Andar de bicicleta é um prazer que não tem dimensão clara. Tanto nos anima nos passeios de um simples domingo, junto com a esposa, quanto essas aventuras, que nos tiram do sério, propiciando a alegria de conhecer novas pessoas, lugares e experiências. E isso não tem preço.

Huli Huli

Luiz Pereira

Pedal coletivo nas nuvens

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Bairro do Centro nunca viu tanta bicicleta. Apesar do nome pomposo, a típica localidade de interior, composta de uma igreja, um bar e unas duas dúzias de casas, fica perdida entre São Paulo e Minas Gerais, próxima à agitada Campos do Jordão/SP

Nunca houve tantas bicicletas por lá quanto de 5 a 7 de Setembro. Nestes dias aconteceu a 8a. edição do Encontro Nacional de Cicloturismo, evento anual organizado pelo Clube de Cicloturismo do Brasil, que no ano passado aconteceu em Camboriú em plena enchente.

Fui ao encontro contar aos colegas cicloviajantes as dores e delícias de viajar um ano usando a Bicicleta, epopéia que completei em junho último e que registrei em meu Blog, o Ciclonomade. Além da palestra, fui divulgar o trabalho do Caminhos do Sertão, através de exposição de fotos e calendário de viagens, e trocar figurinhas com outros viajantes – tinha bastante gente experiente por lá.

Deu vontade de ir para o Atacama e Uruguai, depois dos relatos de Jorge, Fábio e Warley. Aprendi (mais) um pouco sobre mecânica com as palestras de regulagem de câmbio e freios, e como tod@s ali fiquei com vontade de percorrer o Costa Verde & Mar, circuito elaborado pelo clube de cicloturismo, localizado em Santa Catarina e no qual teremos viagem dos Caminhos do Sertão no feriado da Consciência Negra (20 a 22 de novembro).

Apesar da previsão do tempo não ser das melhores, mais de uma centena de viajantes compareceram ao encontro (e ao menos 50 ficaram de fora) e foram nas pedaladas, marcadas pelas fortes subidas e descidas, afinal já estávamos no cantinho de Minas.

A palestra foi ótima, apesar de ter sido um parto. Como é difícil resumir a experiência mais que intensa desse último ano em 1 hora de falação! Ainda assim, creio que consegui passar o recado dessa trip: que vale a pena ir atrás do sonho mesmo com um planejamento pouco detalhado e, acima disso, com pouca grana e muita garra.

Revi bons amigos, fiz outros ótimos. O clima no encontro não poderia ter sido melhor, como se pode ver nas imagens das pedaladas – era tanta conversa que o tempo passou ligeiro. Agora, só em 2010, quem sabe aqui em Santa Catarina de novo!

Ciclo-abraço, ciclo-viajantes!            :D udu

Veja o álbum de fotos do encontro

Pereira e os 380

terça-feira, 1 de setembro de 2009
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Relato de Luiz Carlos Pereira (foto) sobre o treino para o Audax 300

Não é fácil sair de casa, numa sexta feira à noite, montado numa bicicleta, para fazer uma pedalada, que tem como proposta tomar o café da manhã seguinte em Blumenau, retornando à casa para o almoço. Supostamente, um trecho com 310 km de duração, ou extensão, para ser mais preciso.

Como eu não preciso de muita coisa para ir e vir, aonde e quando eu decidir que é hora, quando chegava a hora da partida, tanto a Ana, minha esposa, como o Chico, meu melhor amigo, perguntaram se eu estava na plenitude das faculdades mentais, visto que encarar aquele desafio, sozinho, parecia uma coisa um tanto sem sentido.

Mesmo sentindo uma certa saudade, a partir do primeiro minuto de jornada, segui meu caminho pelo único rumo possível, para cumprir a proposta aprovada. Avenida Pequeno Príncipe, no Campeche, seguindo pelas rodovias e avenidas da Ilha, até alcançar a Ponte Colombo Machado Salles, que liga a Ilha ao resto do Brazil varonil. Ali, pelo adiantado da hora, já era previsto uma encrenca, visto que a perspectiva de passar pela passarela, embaixo da ponte era simplesmente inviável. Diante disso, a ausência das viaturas policiais, na cabeceira insular, é sempre uma aposta. Quando presentes, tem sempre aquela conversa chata, que se resume na tentativa dos policiais de evitar a travessia nas pistas de rolamento. Quando lá cheguei, vi a faixa da direita bloqueada por cones, para proteger uma equipe de manutenção da ponte. Huli Huli…. Passei batido.

Seguindo pelos Estreitos Unidos, Barreiros, Serraria e Biguaçu, curti no trecho a saudade da minha infância e juventude, quando pedalava, com frequência, por pura descontração. Agora, a animação do último boteco aberto, na cidade vizinha, me apresentava à BR 101, escurecida, e seu acostamento com muitos pedriscos e cacos de vidro. Nessas horas, o farol importado, com dínamo e lanterninha traseira, resolvem piscar, com algumas apagadas, que só se resolviam com um tapa no dispositivo. Belo começo, pra quem tinha uma noite inteira pela frente.

A partir do vale do Rio Biguaçu, uma forte neblina passou a me acompanhar, fazendo com que a Lua, de quarto crescente, ficasse encoberta, tornando a viagem mais solitária e nebulosa. Nem a sombra me fazia companhia. Em contrapartida, a camisa, o moleton, o calção e a meia se encharcavam, começando a provocar calos nos pés, pela adaptação à sapatilha nova, e zonas de assaduras, na região de contatos com o celim e virilha. Ai que saudade do hipogloss…

A passagem pela Policia Rodoviária não foi muito amistosa, mas sem nenhuma obstrução. Apenas aquela vontade de parar, pra recompor o estômago, com uma porção de granola, com um café quentinho. A cada posto de combustível fechado, mostrava que o avançado da hora só aumentaria, até o fim da primeira perna da viagem, que era tomar café na terra do chope. Por isso, a chegada ao Posto do SOS Usuário da BR 101 privatizada, foi comemorado silenciosamente. Entrei, sem dar sinal no alarme, tomei água, café, fiz xixi, lavei o rosto, sem que houvesse aparecido alguém pra perguntar o que eu estava fazendo ali. Eram duas horas e vinte e seis minutos, quando eu entrei. Fiquei ali cerca de uns vinte minutos, o suficiente para consertar o fio do farol, que estava sempre se soltando e apagando.

Segui, animado e calado, só parando no outro ponto de apoio da rodovia, mas nem quis saber que horas eram. Só me importava o fato de faltar apenas uns 60 km para o fim do trecho e a mudança de rodovia, que, naquela hora, não estava muito movimentada. Ao contrário, os poucos veículos que passavam não eram suficientes para gerar qualquer interação. Apenas um facho rápido de luz, e o sumiço na escuridão. Na segunda parada, a porta automática se abre, sinalizando com um som a presença. Com isso, o socorrista de plantão veio me receber, anunciando que havia café fresco na cozinha. Uma breve prosa, para avaliar a viagem durou o tempo necessário para evitar que o corpo esfriasse, seguindo meu destino, tendo como companhia a madrugada e a neblina.

A partir da SC 470, sem ter mais nada para fazer, passei a ler a marcação no asfalto, com a quilometragem: 4  + 200, 4 + 600, 5 + 200, 5 + 400, 5 + 600, 5 + 800, 6, e assim por diante, até chegar a Gaspar, quando a rodovia dá lugar às ruas urbanas, trazendo de volta as luzes e um posto de gasolina, com uma loja de conveniência atendendo aos últimos perdidos na noite. Tomei um isotônico, uma coca cola, um guaraná, acompanhados de um saco de pipoca bilu, que era a única coisa que havia para comer. Segundo o rapaz que me atendeu, faltavam apenas 16 km, para chegar na Beira Rio, a avenida mais famosa de Blumenau.

Depois do lanche, segui meu caminho, passando pela frente de uma fábrica de fios de algodão, quando os funcionários trocavam de turno de trabalho. Dali para adiante, era mais visível a presença de seres humanos na rua, a maioria de bicicleta, indo ou vindo do trabalho. Logo apareceu o Estádio do SESI, anunciando Blumenau, iluminada pelos primeiros raios da manhã. Quando cheguei a um bar, na Rua Quinze de Novembro, o proprietário já estava lendo os jornais, e me informou que faltavam cinco minutos para as seis horas. Sentei, pedi um suco de laranja, um café expresso com leite e uns pães de queijo. Comi uns três, eu acho.

Ao tirar o abrigo corta vento, percebi que o moletom, a camisa de lã e a camiseta de malha de algodão estavam completamente encharcados. Pedi ao dono do bar parte de um jornal, colocando-o entre a camiseta e a camisa de lã, substituido o moletom por uma outra camiseta de malha, de manga comprida, para evitar a hipotermia. O corpo já começava a tremer, pelo frio e umidade. Nada agradável, principalmente por ver que o sol não saía com toda força, ao ponto de secar as roupas. Assim que cheguei, liguei para o Alessandro, que estava me esperando, para cumprirmos o segundo trecho do treino, que era a volta pra casa o mais rápido possível.

A volta, acompanhado, foi muito mais animada e divertida. Apesar do desconforto de andarmos em fila indiana, era possível estabelecer um papo, ao mesmo tempo que procurávamos os melhores trajetos, entre calçadas esburacadas e acostamentos cheios de tranqueiras, olhos de gato, tartarugas e afins, sem contar com os sempre presentes pardais de controle de velocidade, na maioria das vezes desligados, mas que têm um estreitamento de acostamento, nem sempre muito convidativo para as bicicletas. Nenhum trecho de ciclovia, ou coisa parecida. Apenas surpresas e buracos. Mesmo assim, o trecho ia sendo percorrido, com ritmo e raça. Paramos para um novo café, na chegada a Itajai, acompanhado de sanduiche e coca cola.

Até a nova parada, no posto de apoio da BR 101, pouco se conversou, pois raramente o acostamento permitia pedalar emparelhado. Apenas seguíamos adiante, com um pé em cima e outro embaixo. Apenas o tempo seguia, enquanto nós vencíamos a distância. Mais uma parada, para uma água de coco e um caldo de cana, junto ao Posto da Polícia, em São Miguel, fechando o trecho onde nos despedimos, no Estreito, quando o hodômetro do Alessandro marcava a marca de 168 km, por volta de uma e meia da tarde. Dali pra adiante, segui, sozinho, o resto que me tocava, até chegar em casa, no Campeche, às quinze horas e trinta minutos. Completava, assim, um percurso que totalizaria cerca de 380 km, em dezoito horas de pedalada.

Não preciso nem dizer que após o banho, caí na cama, só acordando no domingo, por volta de seis da manhã, quando comecei a analisar os resultados físicos. Mãos dormentes, dois enormes calos, na sola e no dedo mínimo, do pé direito, uma enorme assadura na virilha, outras tantas no traseiro, e uma certa dificuldade de caminhar. Para minha felicidade, quando fui pegar a bicicleta, para acompanhar meu amigo chico até a praia, onde tomamos uma cerveja pra comemorar, percebi que o pneu traseiro estava vazio. Um pequeno fio de aço daqueles que se despreendem dos pneus dos carros, estava ficando no meu, que se manteve cheio pela pressão do peso do corpo. Mais feliz em fiquei, quando consertei o pneu, foi quando percebi que minha bomba não conseguiria enchê-lo, pois recentemente troquei de aro, que deixa o pino bastante enterrado, sem que a bomba consiga abrir o bico. Fico imaginando como eu ficaria sem graça, tendo que empurrar a bici, na rodovia, sem condições de trocar e consertar, caso houvesse um furo na viagem.

Com mais esta brincadeira, creio que esteja pronto para encarar o próximo desafio, de 300 km, em Criciuma, nos dias 5 e 6 de setembro, quando esta proposta de pedalada de repetirá, agora ‘oficialmente’. Pelo menos, consegui testar a distância proposta pelo Audax, completando o percurso no tempo esperado.

Pedindo desculpas pela extensão do relato, quis compartilhar esta experiência com alguns amigos, agradecendo especialmente meu camarada Alessandro, que botou fé na brincadeira e estava em Blumenau na hora certa, para que minha viagem não sofresse uma pausa na continuidade.

Huli Huli

Pereira