Pereira e peripécias audaxiosas

Pereira antes do Audax

* por Luiz Pereira

Só pra socializar, o Audax 400 km de Santa Cruz do Sul foi o que prometia. Uma prova de fogo, pra testar a resistência da carcaça humana. Iniciou às 03H30, numa fresca noite ensolarada, com 42 loucos varridos, em busca da volta para o ponto de partida. Estradas sossegadas, à exceção de alguns trechos urbanos, pode-se curtir à vontade as coxilhas do Rio Grande, que fazem a gente pensar que hora carrega pluma, outras horas chumbo. O pior é que os trechos de alívio passavam muito rápido, enquanto subir a lombinha seguinte durava um bom tempão. Mas se pode dizer que há percursos piores, como a Serra do Rio do Rastro e as de Goiás.

O dia amanheceu preguiçoso, com o astro Rei pedindo companhia. O céu vai do ouro ao azulzentado, com nuvens protegendo o cacaruto, desejando boa viagem. Mas como tudo que dói é bastante, lá pelas dez, com o Sol ao pino, o céu se pinta de azul e faz os pingos de suor deixarem marcas. Ainda bem que eu usava uma camisa de manga comprida, branca, daquele tecido que transpira e protege dos raios solares. Esqueci minha proteção de nuca, mas o protetor solar resolveu as partes expostas.

À tarde veio a tormenta, que fazia a bici andar de lado, com chuva moderada e muito respingo na cara. Bom pra começar a noite seguinte, molhando os pés e promovendo a esfoleação da coxa, fritando de encontro à almofada de gel. Nem a tal pomada francesa, prima da ipogloss ajuda e a pele se rompe. O pobre do bilau, fica em pé, feito um bobo, esfregando no bombril da pelagem. Daí, a capinha do bicho fica um nojo. Dois dias pra recuperar….

Como não nos alimentamos corretamente, durante todo o dia, lá pelo início da noite começa a azia. As barras de cereal tornam-se indigestas e o gu provoca ânsia de vômito. Daí, gatorade parece gasolina e os olhos vão se mareando. Melhor modelo para enfrentar o farol de vagalume… Eita nóis…

A Equipe Audax Floripa (Jorge, Nilson, Pereira e Della)

Pra variar, fiz a prova com a equipe. Desde o início formamos um pelotão de quatro, incluindo dois outros camaradas, parceiros de jornada. Um gurizão e um coroa da minha idade. Parceria consolidada, de repente o guri fura. Paramos todos. Troca a câmara, por outra bem furreca. Mais adiante, a segunda. Daí, doei a minha primeira câmara. Andamos mais um kms e outro pneu, agora o dianteiro. Outra câmara. Quando furou o quarto trazeiro, pois o mister tuffi dele estava rachaco, mordendo a câmara. Nesta hora, o Jorge tocou adiante, ficando só três. Paramos pra tomar água, pois ele começava a dar sinais de desidratação. Eu e o outro, aproveitamos para tomar uma Skol.

Seguimos e o cara começou a ficar ruim. Furou mais um pneu, trazeiro. O médico ficou puto e deu um pneu que tem mister tuffi na carcaça. Daí o guri piorou. O médico se mandou. O cara parou e vomitou a barrinha de cereal que eu lhe havia dado. Depois vomitou tudo. Paramos sob uma árvore, pra ele tomar cor, pois estava arriado.

Quando seguimos, encontramos um coroa (59), com a bici de cu pra cima, tentando recolocar o pneu. Paramos, pra acelerar, aproveitando a experiência adquirida, nos cinco primeiros ensaios. O cara jogou água na cabeça do guri. Quando quase chegávamos ao Posto de Apoio, ele me avisou que ia desistir. Resultado: uma hora e meia de atraso, por um desistente… é ruim…

De resto, só um caminhão bi trem, muito comum na região, carregando madeira, avisou de longe que não arredaria na pista, completamente vazia, no meio da noite, e passou tão fino que pensei que o capacete iria encostar na carroceria. Buzinando e piscando, mesmo depois do feito, como se estivesse comemorando. ìamos dois, na fitinha branca, e por pouco a brincadeira não acaba ali.

Pereira e Jorge ao final do Audax - admirável o sorriso após tantos quilômetros!

No mais, só alegria, algumas dores musculares, e um enorme prazer de ter vencido mais este desafio, que mistura prazer e dor. Tivemos dez abandonos, e nós completamos os 409,800 km da prova em vinte cinco horas e trinta minutos. Uma média não muito baixa, mas que tinha umas três horas de atraso e lastro, que fazem parte do processo. Agora, 600. Até dia 26 de fevereiro temos que nos preparar, pois esta vai ser de arder. Diz a lenda que teremos duas serras como a de Santa Maria. Uns doze quilômetros cada…..

A Equipe Audax Floripa continua protegida por Nossa Senhora da Liberdade. Como sempre, não tínhamos reserva no hotel que alojou o circo, mas quando chegamos lá o cara recebeu notícias de uma desistência, sobrando dois quartos, quentes pra caralho. Mas, pelo menos, dormimos o máximo, sem problemas de deslocamento antes e depois da prova. Atendimento de primeira, café da manhã caprichado, além de instalações de logística à disposição. Desta vez ninguém perdeu passaporte e o Della e o Nilson chegaram umas quatro horas na frente de todos.

E vamo que vamo…..

Huli Huli

(aliás, todo o Audax adotou o Huli Huli. No final, um cara, quase solene, perguntou o que significava isso. Eu disse que era tudo o que ele imaginasse).

E, se tudo der certo, em agosto estaremos em Paris….

** as fotos deste Post são do Audax 300 de Santa Maria, em dez/2010

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