Pereira pé de vento faz os 600km do Audax

Luiz Pereira(* a foto ao lado é do Audax 2009 Floripa)

Huli Huli

Pois podem acreditar: foram 602 km, em uma jornada de 38 horas, que
custaram alguns fios de cabelos do fundo da orelha. Não posso dizer
que foi moleza, pois o percurso e as condições de clima foram pensados para testar a diferença entre homens e meninos.

Percorremos uma região lindíssima, no planalto médio do Rio Grande do Sul, com sua topografia agressiva, alternando altos e baixos, com variação que chegou a 500 metros de altitude. De brinde, todas as estações do ano, apresentada da forma mais dura e exigente que um ciclista pode querer, pra testar se gosta mesmo desta maravilhosa forma de ir e vir. Chuva, frio, calor, vento, asfalto esburacado, caminhões apressados, são os parceiros de viagem, para aqueles que provaram o sabor da aventura sobre duas rodas, impulsionadas por pernas resistentes, e um desafio de testar os limites da paciência e persistência.

Como fomos ‘censurados’ pelo aparelho de repressão e insegurança do estado, a prova teve um número reduzido de participantes, vindos de cinco estados, incluindo-se alguns gaúchos, de cidades distantes, que preferiram fazer a prova sem identificação e divulgação, uma vez que a oficial foi transferida para um futuro próximo. Uma coincidência de data com uma corrida de caminhões, na cidade vizinha, expôs a insegurança que os ciclistas enfrentariam, por andar em estradas cujas condições de acostamento e apoio são precárias, especialmente na região da cidade que nos acolheu. Por isso, a polícia disse que não poderia oferecer o suporte logístico, em caso de acidentes com os envolvidos no passeio. Como não precisamos de autorização de quem quer
que seja, juntamos doze loucos apaixonados por liberdade, sendo que um deles era mais privilegiado, pois pedalava numa bicicleta reclinada, daquelas que o ciclista anda com as pernas para o ar.

Às três e meia da madrugada, demos a largada para a maratona, numa noite fria e estrelada, na perspectiva de uma longa convivência com as condições climáticas. Afinal, tínhamos quarenta horas pela frente, sem muito o que fazer, a não ser pensar no ponto de partida, onde estaria garantido o refúgio e descanso, após a jornada concluída, ou o
infortúnio da desistência. Todos sabíamos que só tínhamos uma alternativa: pedalar, curtir e esperar. O silêncio da noite era quebrado pelas rãs, escondidas nos brejos, ou os cães da beira da estrada, que faziam festa diante da nossa presença e intromissão na paisagem. De vez em quando um veículo motorizado se apresenta, iluminando a estrada e deixando seu rastro de som. Durante a noite, principalmente pelo fato de haver pouco movimento, costumamos ter
segurança em andar sobre a faixa de rolamento, sem sermos incomodados, mas já tivemos casos de caminhões que se aproximam buzinando, avisando que não vai mudar de faixa para nos ultrapassar.

Na medida em que o sol vai aparecendo, a paisagem se apresenta com mais intensidade. A paisagem rural, com seus cheiros, cores e movimentos, vai servindo de motivação, como um filme em câmara lenta, onde as imagens vão mudando tão lentamente quanto se queira, ou uma montanha adiante diminua a intensidade da curtição. Estas, quando
surgem, são sempre motivo de reflexão e dor, fazendo com que a pedalada assuma o ritmo da respiração, e a pressa se torna inimiga da satisfação. Respirar, curtir, relaxar… Assim passam os quilômetros e o tempo, atingindo-se as metas, na medida em que se avança. A cada posto de controle, um carimbo, e a certeza de que já estivemos mais longe. Esta, aliás, é a tônica do movimento: não importa quando, não importa como. O importante é atingir o objetivo. Respeitando-se, é claro, os limites pré estabelecidos.

Tendo em vista as características do grupo, formou-se, quase que naturalmente, três pelotões. À frente, seguiam os mais aptos, em número de quatro. Depois, outros seis, ditos experientes e persistentes. Mais atrás, o carioca, com sua cadeira de rodas e, por último, um camarada que veio mais para tirar fotografias da paisagem do que para pedalar. Literalmente, um cicloviajante. Nossa equipe Audax Floripa tinha dois representantes no primeiro bloco, e os outros
dois no segundo. Assim tem sido a brincadeira, com nosso dois bravos representantes sempre chegando em primeiro e segundo, enquanto nós outros dois nos contentávamos em completar mais esta etapa. Assim seguia a caravana, num dia que foi ficando nublado, com nuvens negras, vindas do centro do continente, avisavam que iam nos fazer companhia.

A partir da hora do almoço, a chuva chegou intensa. Daquelas trovoadas rápidas, que trazem consigo a chuva persistente, avisando que não adianta parar para esperar uma estiada. Portando, só resta encarar e sorrir, seguindo com muito mais atenção, tendo em vista que tudo fica mais difícil, em virtude da precariedade dos sistemas de asfalto e
drenagem das estradas. Buracos, asfalto solto, cacos de vidro, pedaços de pneus, com seus cabelos de aço convidando o pneu para um encontro, tachões, sujeira de toda ordem, começam a ganhar importância, especialmente quando a noite cai e a chuva continua caindo. A roupa molhada, a pouca luz dos faróis, o frio, fazem com que a vontade de
chegar se acentue na mesma dimensão que crescem as dificuldades. Todo cuidado no pedalar é necessário, principalmente para se evitar o pior, que é um tombo ou um pneu furado. Nestas condições precárias, chegamos
na cidade e Encantado, onde conheci a mais larga e mais bem localizada ciclovia das cidades que já passei. Uma verdadeira avenida, que mantém os ciclistas bem longe dos motoristas. Ali estava programada a janta e
foi onde encontramos a equipe que seguia à frente, que sofrera uma série de transtornos de pneus furados, motivados pelas péssimas condições da estrada, que além de furar a câmara rasgou o pneu, de uma das bicicletas.

Em virtude da precariedade das condições das estradas, o organizador resolveu retirar um trecho onde havia e proposta de uma subida extremamente íngreme, a um lugar inóspito e quase inabitado, por outro, da mesma distância, no final da prova. Com isso, a chegada no ponto de apoio, para dormir, ficou antecipada. Assim que largamos,
após a refeição, passamos pelo pelotão de vanguardistas, parados, trocando pneu. Como estavam ali os melhores, os demais preferem seguir, pois não havia o que fazer para ajudar, Seguimos, fortalecidos, para atingir cerca de 350 km, já com noite estrelada, pois as nuvens já haviam se precipitado. Atingimos o pouso de sono após 21 horas de pedaladas. Posso dizer que esta chegada foi comemorada como uma vitória. Depois de um banho, três horas de sono tentaram restabelecer o corpo, para a segunda etapa, no dia seguinte. Quando acordamos, verificamos que o grupo da vanguarda havia chegado quase duas horas depois de nós, enquanto que os dois que ficavam para trás recém haviam chegado. Ao pegar a bicicleta, percebi que o pneu dianteiro estava vazio. O atraso, para a troca, fez com que o nosso grupo se dividisse, ficando três em cada bloco. Saímos, sem tomar café, o que só aconteceria depois de quase quatro horas e cem quilômetros pedalados. Até ali, o suporte físico foi dado pelas cápsulas de guaraná, vitamina C e isotônicos. Para contrabalançar, o sol resolveu nos acompanhar desde cedo, anunciando um dia lindo e ventoso. Vento, como sempre, vindo ao nosso encontro, só pra tornar tudo mais interessante.

Nada está tão longe que não se atinja, ou tão duro que nunca acabe. De pedalada em pedalada, as paisagens vão ficando na saudade. As estradas interioranas estavam com aquela cara de domingo de manhã, enquanto as vias principais tinham aquele ritmo acelerado de sempre. Coincidentemente, quanto mais movimentada a estrada, mais buracos e
ausência de acostamento ela tinha. Tudo dentro dos padrões do trânsito brasileiro, o que não é nenhuma novidade. Num ponto de apoio foi servida uma macarronada com carne moída, teve o sabor de uma refeição dos deuses. Não houve uma única sobra nos pratos. Naquele momento, era tudo o que precisávamos e desejávamos: carbohidrato e proteína. Depois do rango, seguimos para a última etapa, cada vez mais próxima do final. Encontramos o pelotão de ‘especialistas’ a uma distância de uns trinta quilômetros de nós, visto que haviam saído quase duas horas após a gente. Faltavam cento e setenta quilômetros, e um prazo de sete horas e meia. Tudo dentro dos planos.

Depois de muitas subidas e descidas, chegmos ao final da jornada, com um tempo de trinta e oito horas, dentro das quarenta prevista. Desta vez não houve mutilações expressivas, a não ser os calos na mão, junto aos punhos, e as assaduras de praxe, nas partes mais vulneráveis. Nem com as pomadas bundex, ou pacu assado, consegue-se evitá-las, visto que chuva, suor e atrito constante vão deteriorando os tecidos lentamente. Mas, entre mortos e feridos, saímos todos ilesos, sem qualquer registro de transtornos, ou acontecimentos relevantes indesejáveis. Desta vez, aconteceu algo considerado impossível, visto que a Equipe B, dos velhinhos indomáveis, chegou com uma hora de vantagem sobre os dois guerreiros melhor preparados. Mais um motivo para as brincadeiras e comemorações, visto que nós dois já havíamos tentado esta prova, no ano passado, ficando pelo caminho, por cansaço e transtornos pneumáticos.

Agora, todos havíamos atingido mais um desafio, configurado numa medalha de lata, e um certificado colorido pelo feito ancalçado. Mas, o que não tem preço, ou classificação é a alegria da confraternização e a satisfação de estarmos vivos, livres e leves, para curtir intensamente esta brincadeira. Agora, começa a fase mais dura, que são os treinamentos para a próxima etapa, com o dobro da distância e no outro lado do Atlântico. Até lá, vamos ver quantos obstáculos teremos que vencer. O importante é continuar treinando, pedalando e sonhando.

Saudações audaxiosas

Luiz Pereira
Equipe Audax Floripa

Esta entrada foi publicada em relato de pedalada e marcada com a tag , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

5 respostas a Pereira pé de vento faz os 600km do Audax

  1. grande tio Pereira. Parabéns, que venha a França e as francesas…ulálá!!!

  2. AEEEEEEEEe Pereira!!!!!
    Poooo, li o relato emocionado aqui!!!!!!! Meus parabéns!!!!!!
    Estava torcendo por você meu caro! =)))))))

    E que venha os 1200! =)
    Valeuuuuuuu e forte abraço!

  3. Francisco disse:

    Caracas… é uma verdadeira viagem ler a narrativa.
    Grandes coisa os meus 1.706km em 5meses de pedal… perto do que você faz em poucas dezenas de horas.
    Pénopedal agora virou meu lema… lema??? sei lá minha frase.
    ´To pensando no AUDAX Floripa…
    Ô Pereira – quando você se refere aos véinhos qual é a quilometragem de vocês(anos)? nos enta antes dos sessenta? hein me ajuda e me dá esperanças aí viuu.
    Ah sou de Urubici e aqui é só morro, haja perna.

  4. Madalena disse:

    Pereira meus parabéns!!!
    Senti como estivesse presenciando tudo, narrativa perfeita.
    Gostaria muito de participar do Audax Floripa, mas não estou nadinha preparada.
    Bon voyage

  5. JR Dutra disse:

    Como eu disse nas inúmeras vezes em que nos cruzamos neste Audax Floripa 2011 –
    ” Toca Rauuuuuuuuuuuuuuullll!”

    parabéns, meu caro…
    um dia se eu for 10% da figura que és, querido, batalhador e humano,
    serei mais feliz ainda..
    Pq feliz eu já sou, ao desfrutar de ambientes que envolvem gente como tu!!
    abraço sincero!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *