Sete anos desbravando os Sertões do Sul

No dia 10 de junho de 2004, iniciou-se uma pedalada de três dias nas estradinhas de terra entre Águas Mornas e São João Batista, Santa Catarina. Se a viagem foi boa? Bem, estamos no caminho até hoje, e seguindo em frente….

Agradecemos a tod@s que nos acompanham desde então, seja sonhando ao ler os relatos de viagem e  ver as fotos, seja vivenciando as dores e delícias que só uma cicloviagem pode proporcionar!

A viagem inaugural começou com trovoadoas e terminou com um lindo pôr do sol… como recordar é viver, veja abaixo o relato daquela primeira epopéia sertanista:

Está Chovendo? Sem problema! -A obstinação pela viagem marcou nosso grupo logo de início. Também, pudera: às 8 da manhã, horário marcado para a saída, relâmpagos cortavam o céu e uma saraivada de trovões anunciava a tempestade que não demorou a desabar.

Hesitamos um pouco, porém, com o desejo em comum de cicloviajar, resolvemos apostar na bonança e tocamos de carro em direção à Águas Mornas, com a chuva implacável durante todo o trajeto.

Quando chegamos à cachoeira do seu Quirino, a tormenta já estava bem mais calminha. O teto ainda era cinza, mas ao menos a chuva tinha dado trégua. Nosso aquecimento para a pedalada foi um trekking leve pelas pedras do rio dos Bugres, que desliza sobre um leito cor de caramelo. O objetivo da caminhada era chegar a um ponto onde se avista a volumosa queda d´água, despencando imponente num salto de cerca de 40 metros de altura.

Traços da imigração alemã – Devidamente aquecidos, botamos as magrelas pra trabalhar. Mas quem trabalhou de verdade foram as pernas dos nossos valentes cicloviajantes, pedalando morro acima em direção aos vilarejos alemães de Loeffelschedt, Primeira Linha e Segunda Linha. À medida que a BR 282 ficava para trás, o caminho de terra conduzia a locais onde o tempo parece ter estacionado.

Tão próximas de Florianópolis, as vilas nem de longe lembram a cidade grande. Sucedem-se casas de gente simples, ornadas por jardins multicoloridos e pés carregados de bergamotas ao alcance de qualquer mortal. Fumaça, somente dos fogões de lenha. Agito, apenas das águas de rios cristalinos que nunca deixam de nos acompanhar estrada afora.

Ainda era dia quando chegamos ao bairro Santa Filomena, já em São Pedro de Alcântara. O ritmo da equipe foi invejável, considerando o longo trecho em subida do trajeto de 40 km iniciado quase ao meio dia. Na pousada Santa Bárbara, nossas narinas eram agraciadas pelo cheiro do maravilhoso jantar preparado pela proprietária, dona Mônica, enquanto tirávamos a lama das bikes para deixá-las supimpas para a próxima jornada.

A recompensa pelo cansaço, além da farta comida, foi o pouso na centenária casa de arquitetura alemã, com todos os aposentos à disposição da galera do pedal. Além de confortável, a pousada encanta pela relevância histórica. Seu quintal abriga a capela de Santa Bárbara, um marco religioso dos pioneiros de São Pedro de Alcântara, famosa por ser a primeira colônia alemã em Santa Catarina.

Por caminhos do século XVIII – No segundo dia da viagem, botamos as magrelas numa curiosa descida toda calçada de pedras. São vestígios do Caminho das Tropas, aberto no final da década de 1780 para ligar a capital Desterro aos campos de Lages, cruzando a inóspita serra. A abertura da picada, um feito certamente épico para aqueles tempos, é atribuída ao alferes Antônio José da Costa, descendente de açorianos nascido em Desterro.

O autor da empreitada, acompanhado de 12 homens armados, 12 escravos e sete cargueiros empenhados em abrir a trilha pelo vale do Rio Maruim, registrou a aventura no relato Derrota de viagem que fiz ao Sertão de Terra Firme desta Ilha de Santa Catarina. Para quem acha que a viagem do alferes Costa deu errado, vale esclarecer que o termo derrota também tem o sentido de percurso, direção, e sua etimologia remonta ao sentido de “caminho desbravado”.
Benditos sejam os que desbravaram os caminhos. As rotas que abriram para escoar riquezas, substituídas por outras mais modernas e pavimentadas, hoje nos conduzem a bordo de nossas bravas magrelas por cenários de beleza deslumbrante. Sempre pedalando, passamos por Antonio Carlos, também uma ex-colônia alemã, celeiro de hortaliças da grande Florianópolis. Sucessivas lavouras de alface, agrião, couve-flor e repolho, dentre outras, pontuam a região rural da pacata cidade. Mas ela nem sempre foi assim, tão calma.

Em tempos de Segunda Guerra Mundial, quando a ditadura Vargas se opôs ao Eixo (do qual fazia parte a Alemanha), um xenofobismo radical invadiu as colônias alemãs no Brasil. Em Antonio Carlos, houve uma devassa em casas, igrejas e cemitérios, numa tentativa de destruição de tudo que evocasse a cultura germânica.

Albergue rural, rali e ponte de ferro – Chegamos à Fazenda de Dentro, bairro rural de Biguaçu, antes da chuva torrencial que começou a cair no fim da tarde de sexta feira. Dormimos com o barulho dos pingos sobre o telhado, num albergue construído através de iniciativa pioneira de estabelecer uma hospedagem para peregrinos naquela região. Este fica num sítio onde se cultiva boa parte dos alimentos consumidos no jantar e café da manhã, ambos com a fartura típica das propriedades rurais.

No sábado, último dia da pedalada, fomos presenteados com um céu de azul intenso, sem qualquer sinal de nuvens. Começamos o trecho por trilha, a partir do sítio, enfrentando lama até o alto do morro das Cobras. No topo, a recompensa: um visual esplêndido da Ilha. Tocamos as bikes em direção a Canelinha, passando por arrozais que pintam a paisagem com um amarelo-limão reluzente.

Meia volta, volver: nossa simpática estradinha de terra foi interditada para a realização de um rali. O jeito foi pegar uma carona com o carro de apoio, somente no trecho pedalado a mais, e refazer a rota. Acabamos passando pela cidade de Tijucas, que recebeu os cicloviajantes com sua estilosa ponte de ferro atravessando o rio de mesmo nome.

A partir dali, o imprevisto nos obrigou a pedalar pela SC 411. Sem problemas, já que a rodovia é razoavelmente calma e tem um bom acostamento.Na altura de Canelinha, voltamos ao caminho de terra, margeando o rio Tijucas. Enquanto o sol se escondia, os morros eram tingidos de cor-de-rosa, o que aumentava a emoção ao final do percurso.

Chegamos junto com a noite na cachoeira do Fernandes, em São João Batista, com os odômetros registrando 160 km de viagem, e as memórias preenchidas por visuais, histórias e descobertas que os caminhos sempre nos proporcionam.

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