De 2 a 4 de Abril, estivemos mais uma vez presentes em Urubici. Mesmo percorrendo uma distância menor no 1º e 3º dias, vistamos alguns dos pontos mais bonitos e agradáveis de pedalar na região, como Morro de Igreja, a localidade do Invernador e vale do Rio Canoas.
O clima estava relativamente quente para o outono, graças às aparições do sol em meio às onipresentes nuvens. Colaborou também a fartura do café colonial do Sabor da Serra e a sempre calorosa acolhida do sítio Arroio da Serra, onde pudemos saborear os primeiros pinhões da temporada, colhidos do chão – a coleta nas árvores está em defeso para que os pássaros se alimentem e façam a disseminação das plantas.
Intercalamos as pedaladas com caminhadas para a Cascata do Avencal, Morro do Campestre e Rio Sete Quedas. Afinal, a bicicleta permite uma boa proximidade de contao, mas nada comparável a chegar a pé.
As baleias francas visitam o litoral catarinense todo ano enre agosto e novembro, na temporada em que cuidam de seus “pequenos” filhotes. A Caminhos do Sertão elaborou um roteiro exclusivo para acompanharmos de bicicleta as ilustres visitantes, ao longo de um caminho tranquilo e maravilhoso – e muito romântico.
Assim, mesmo nos meses em que não é possível a avistação, a diversão é garantida. Em Março, quando os turistas paulista e gaúchos que lotam o litoral ao sul de Floripa já voltaram para suas casas, o casal Regina e Ennio percorreu conosco a Rota, entre Imbituba e Floripa. Fora uma chuva intensa no primeiro dia, o clima foi de verão, perfeito para aproveitar os diversos pedais à beira-mar.
Carnaval é época de dançar muito samba e tomar cerveja. E morando no Brasil, não dá pra fugir disso, e ninguém quer, certo?
Nada disso. O casal Andrea e Lars, que moram em pleono Rio de Janeiro, nos procuraram querendo um roteiro na aconchegante Urubici, e nem por isso monótona. Passamos pelos principais pontos da cidade, como Morro do Campestre, Rio Sete Quedas e Vacarianos. E fechamos com chave de ouro subindo a pedal o Morro da Igreja. Pena que dessa vez estava tudo branco!
No final de janeiro, operamos mais uma vez a travessia Urubici-Florianópolis, roteiro exclusivo com a qualidade de serviço e experiências que só a Caminhos do Sertão oferece.
Dessa vez, guiamos Amanda e Tim, casal da cidade norte-americana de Portlan, Oregon. Apesar de nunca terem viajado de bicicleta antes, já estavam acostumados a pedalar, e se surpreenderam mesmo foi com a diversidade de paisagens e hospitalidade dos catarinenses, tanto os serranos como os manezinhos.
Em Novembro estivemos novamente em Urubici, para uma pedalada de 3 dias. Apesar lá também ter feito calor, com certeza foi mais ameno que o do litoral. Desta vez, no primeiro dia tomamos banho de cachoeira no rio Sete Quedas, visitamos o Morro do Campestre no pôr-do-sol e pedalamos sob a luz da lua cheia.
Já no segundo dia fomos ao Cânion Laranjeiras, no Parque Nacional da São Joaquim. O calor intenso e a estrada ruim castigaram e acabamos pedalando pouco. Em compensação a caminhada até a beira do Cânion é inesquecível.
O terceiro dia fechou a aventura com chave de ouro. Subimos de van ao topo do Morro da Igreja, que estava com o visual totalmente aberto. Descemos os 17km devagar, para poder apreciar a paisagem. Não poderíamos deixar de passar pela linda estrada do Invernador e curtir as deliciosas refeições do Sítio Arroio da Serra, feitas com ingredientes orgânicos plantados ali mesmo.
Faça frio ou calor, chuva ou sol, Urubici é sempre uma maravilha!
Seu Raulino Duwe é um dos tantos que sentiram rápido o efeito da novidade. Diz que, só neste ano, recebeu por alto “uns 400 visitantes” – só de Cicloturistas!
Ele é caseiro de algumas casas de campo e as usa, com consentimento dos donos, como acomodações para os distintos turistas do pedal. As casas ficam sobre as barrancas da barragem do Rio Bonito, com vistosos mirantes para a Lagoa. Pra chegar lá, a partir de uma das bifurcações no Circuito do Vale Europeu, escolha: 8 quilômetros de sucessivas “morrebinhas”, ou 2 km até encontrar o seu Duwe, num ponto aparentemente sem importância da Lagoa. “A maioria prefere a segunda opção”, revela-nos o seu Duwe, remando de ré sua bateirinha na última das viagens em que atravessou todo nosso grupo até as casas. Ele é um exemplo vivo da importância para a economia regional que teve o Circuito, uma acertada criação do Clube de Cicloturismo, criado em 2006.
Este foi o final do segundo dia de viagem. Antes de atravessar a represa, os caminhos-refúgios: não contei mais que 2 carros passando pelo grupo. A essência Sertaneja do Vale Europeu, nos seus recantos mais recônditos, e tão belos. De presente, e que presença!, a fabulosa Cachoeira Véu de Noiva também está neste trecho. Verte forte e ruidosa, é alta e imponente, e só o vapor atirado pelas pedras já era suficiente para nos refrescar naquele meio-dia de Sol brilhante (sim amigos, há Sol em Santa Catarina, há Sol no Vale Europeu, o astro-rei tem de fato feito seus primorosos espetáculos!)
Mas a primeira Cachoeira foi a do Zinco, esta vista de longe, do ponto de partida no primeiro dia. Seguem-se uns caminhos um pouco monótonos pela larga presença da mocultura de Pinus, mas a cena logo muda, principalmente quando acercam-se os rios e as matas fechadas (algumas) que o protegem. Os jardins dos sitiozinhos são atração à parte, modelados geometricamente, alguns com flores que de tão grandes e vermelhas e lustrosas parecem de mentira (Viviane, uma das cicloviajantes, parou numa das casas e perguntou sobre a florzona, cujas mudas são muito intercambiadas entre os moradores da região). Este dia fechou na Bella Pousada – onde, vejam só, serviram-nos flores (capuchinhas) na salada, um brinde aos olhos e ao paladar! A Pousada tem sem dúvida o melhor visual de Doutor Pedrinho.
Ok, eu confesso: chuvas rolaram na manhã do último dia, nas altitudes, com o perdão do trocadilho, de Alto Cedros (onde ficam as casas cuidadas pelo Duwe). Frustração completa? Nem pensar! Foi só descer parte da Serra de van que o teto limpou, houve uma breve assembléia e decidiu-se: vamos pedalar ! Caminhos de areia batida, lisinhos, sem lama, ladeira abaixo e acompanhando o curso do Rio dos Cedros, que ronca alto entre as pedras. Depois segue-se a travessia da cidade de Rio dos Cedros, e outro trecho de vias planas e tranqüilas leva a Timbó. Chegamos lá no melhor dos estilos: pedalando, todos juntos! No final o roteiro foi um sucesso, com pedaladas todos os dias, a despeito das ameaças de chuva que acreditamos ter afastado parte dos interessados. Em clima de Oktoberfest, uma torre de Chopp no restaurante Thapyoka (Timbó) foi o encerramento oficial da Cicloviagem de 3 dias pelo Vale Europeu. E aguardem, para breve, a saída para o restante do Circuito (que tem, no total, 7 dias de duração).
Viajar à beira-mar tem seus poréns. Flagrar revoadas de gaivotas, acompanhar os contornos de espumas que as marolas desenham na areia, zanzar livremente sem a maldita pressão de buzinas é o que sempre se espera, e o que realmente há de sobra. Porém, há as barras. Descontinuidades no caminho, encontros de rio e mar que impõem a pausa, ou uma travessia improvisada. Já havia comentado o assunto no relato Mar, lagoas e o barqueiro Buiú, da viagem pelo mesmo roteiro que fizemos em 2007. A Barra de Ibiraquera é incerta: rompe, à força de temporais mais impiedosos; rompe, à força das máquinas que escavam a areia, num ato pela renovação das águas da Lagoa. Aberta, a Barra é um canal de água salobra com pouco mais de 100 metros de largura, raso demais para um barco de porte médio, fundo demais pra evitar que a travessia carregando uma bicicleta nas costas não seja uma verdadeira encrenca molhada.
Então, a solução adotada agora foi a mesma de 2007: acomodar as bicis na simpática bateira azul-calcinha, manusear o bambu-propulsor, e fazer tantas viagens quanto fossem necessárias para cruzar as 17 bicicletas e seus respectivos 17 condutores.
Tarefa melindrosa, mas nem tão difícil assim. Difícil mesmo foi desencalhar o barco da travessia Ilha-Continente, contra lufadas do vento nordeste impiedoso, no último dia da jornada. Mas isso é assunto para mais além.
Procurando Baleias
Deixamos Itapirubá no início da tarde de sábado. Motivo aparente: ver baleias. Motivo real: tentar ver baleias, enquanto se pedala em grande estilo por caminhos litorâneos e cuidadosamente selecionados, de modo a priorizar a contemplação e o alto astral. Diz o Jonatha, nosso guia e navegador, que avistou um simpático cetáceo lá da praia da Ribanceira, no meio do burburinho de um campeonato de surf. Mas, estando por último, não teve tempo de avisar o grupo. Fora isso, nenhum relato de visualização das gigantes.
Porém, condizente com o verdadeiro espírito “tentaremos ver baleias” desta empreitada, entramos pela Praia do Ouvidor no domingo. Um caminho sem saída, não fosse a originalíssima travessia pelo Projeto Gaia Village, disponível para poucos. Quatro quilômetros de pura beleza, atravessando dunas, restinga, um rebanho de bubalinos e áreas de recuperação ambiental.
O trecho, todo ladrilhado, termina na sede do Gaia Village. Ali fomos recepcionados pelo Donizete, que gentilmente nos fez uma apresentação dos princípios e atividades cotidianas do Projeto. Reserva particular que abarca variados ecossistemas litorâneos, os 900 hectares são preservados e recriados conforme o anseio dos proprietários, baseados no legado de José Lutzenberger, um dos mais ilustres ambientalistas brasileiros (falecido em 2002).
Ciclista caiçara pega tainha à unha
Da sede do Gaia rumamos à outra Barra, desta vez no canto sul da Ferrugem. Água pelos joelhos, bike nas costas, uma a uma. Numa das travessias uma tainha roçou minha perna; um ímpeto primitivo baixou sobre mim. E então, já que o interesse pela fauna marinha era grande entre os pedalantes, peguei a tainha à unha, para descrédito geral. A brincadeira custou-me uma mergulhada da câmera fotográfica em água salobra, além dos apelidos de Caiçara, Pescador e assemelhados. Para os curiosos: a câmera voltou a funcionar (ao menos por enquanto). Para os preocupados: a pobre tainha foi devolvida ao mar.
Depois da breve passagem pelo centro de Garopaba, seguimos ao Siriú, alongando o caminho com o contorno da Lagoa do Macacu. É um trecho ainda mais tranqüilo que o usual, com visuais privilegiados que as “morrebinhas” curtas e inclinadas proporcionam. Chegando à Pousada do Taxo nossa trupe, não satisfeita em esperar o farto jantar que se anunciava, resolveu celebrar a vida aos petiscos de um “surraxquinho” de lingüiça. Ponto para o Davi, nosso colega chileno, que não só providenciou a matéria-prima como comandou a churrasqueira.
Curiosos (e saborosos) quitutes no Engenho
O Morro do Siriú marca o início do último dia, como o aclive mais forte de toda a viagem. Após vencê-lo, e admirar do alto a vasta planície costeira, rumamos ao interior, nosso Sertão. Parte dos costumes camponeses pudemos provar na calorosa recepção das irmãs Maura, Vilma e Inácia, que mantém um dos poucos engenhos artesanais de mandioca na região. Ambientada no galpão rústico, entre rodas de moagem, prensas e tachos, repletos de bijus quentinhos e fumegantes, a mesa posta era o verdadeiro amálgama das culturas indígena e açoriana. Você conhece a bijajica? É a massa da mandioca, misturada à pedaços de amendoim e especiarias, e assada em vapor. Uma perdição. E o nego deitado? É um preparado à base de fubá, envolto em folha de bananeira e assado. Preciosa iguaria. Fora as bolachinhas, bolo de milho e tapiocas que as Irmãs serviram com abundância. O trabalho delas é reconhecido como um importante resgate cultural pela gastronomia, fato que chamou a atenção do Slow Food, movimento ao qual recentemente integraram-se.
Engana-se quem pensou que o Morro do Siriú fosse o maior desafio. Imprevistas, as lufadas de vento Nordeste complicaram o percurso de 8 km na Praia da Pinheira. O açoite das rajadas, evidente na areia fina que corria baixo feito névoa na praia, foi duro. Ao final, um embarque tão duro quanto, para atravessar a Baía Sul de volta à Ilha. Maré vazante, contraposta ao vento forte levantando ondas, e nosso valente barco abarrotado de bicicletas resolve encalhar na areia. Foram necessários muitos braços e disposição, além da inestimável contribuição de dois motoqueiros que passavam por ali, para mover o bólido.
Ao final da travessia encerramos a viagem – o tempo fechou bruscamente, sinal das tormentas que assolaram o Estado justo naquele dia. Das Baleias levamos as lembranças, e o porvir de um dia quando talvez elas resolvam vir ao nosso encontro. Do belíssimo Litoral sul, das experiências ambientais e culturais, de todos os seletos caminhos percorridos e das amizades conquistadas lapidamos jóias em nossas memórias, tesouros de viajantes em nossas vidas.
Já me foge à memória a contagem de vezes em que estive em Urubici (desde a primeira, há 10 anos atrás, pra pedalar de lá até Floripa com o parceiro Dudu).
Nessas tantas idas ficamos nas mais variadas hospedagens, todas elas de altíssimo astral e aconchego.
Mas nada se compara a ficar, como fizemos nesta última vez, em uma Pousada de família de agricultores. Não foi aleatória a escolha da Pousada Arroio da Serra, vinculada à Associação Acolhida na Colônia. Passa pelo nosso propósito de cada vez mais alinhar as correntes do turismo de aventura aos processos de desenvolvimento regional, sobretudo à iniciativas sustentáveis e socialmente justas.
Ao ampliar o leque de oportunidades de renda, famílias como a do sr. Eraldo e Terezinha Souza, que nos receberam de um modo em que o termo Acolhida faz todo o sentido, estimulam-se a permanecer no campo e cuidar da terra através das práticas agroecológicas. Deste modo, respeitam os ciclos naturais e a harmonia com o ambiente, produzindo alimentos livres de veneno e tendo a oprtunidade de oferecê-los aos próprios hóspedes.
Se isso ainda não for o suficiente para atrair os visitantes, deve-se dizer que as acomodações são confortáveis e aconchegantes, num clima rústico de ambiente rural, mas com tudo zelosamente preparado até para os hóspedes mais exigentes. As refeições em fogão de lenha são feitas ali mesmo, aos olhos do visitante; além de inebriar-se com os aromas, é possível obter preciosas dicas da dona Terezinha sobre o entrevero, típica iguaria serrana à base de pinhão, ou outra de suas fabulosas receitas. E tem mais: o mesmo fogo que cozinha os alimentos aquece o sistema de água dos chuveiros, num projeto eficiente que garante ótimos banhos mesmo no frio de Urubici.
Mas é claro que o nobilíssimo leitor está aqui também para saber sobre o relato da pedalada. Sobre esta, digo que percorremos caminhos nada óbvios pela região, aproveitando a localização da Pousada, que fica a 10 km do Centro na direção de Rio Rufino. De lá, seguimos bordeando o Rio Canoas pela margem direita, até encontrar o asfalto já numa das últimas descidas da Serra do Panelão.
Derivando ao Caminho do Invernador, evitamos boa parte da estrada que liga Urubici ao Corvo Branco, além de passar por trechos extremamente sossegados e ao longo de belas florestas de araucárias. De volta à estrada geral, em plena obra de asfaltamento, alguns trechos com lama foram inevitáveis. No meio do trajeto uma parada estratégica da Família Beckhauser, também pertencente à Acolhida na Colônia, para um farto lanche com produtos coloniais.
A pedalada seguiu com seus animadores oficiais, os colegas Adilson e Marcelo (que conheceram-se nessa viagem, afinando-se de imediato nos repertórios de piadas, que despachavam sem dó perante o pelotão – alguns atônitos). O ápice da gozação ocorreu quando o Zé, nosso motorista, ofereceu ao Marcelo um “sorvete -seco” com bexiguinha (daqueles cones de sorvete com maria-mole cor de rosa, artefatos do arco da velha que só se encontram nos butecos dos confins). Marcelo de pronto aceitou o presente e, tão logo o devorou (e foi rápido mesmo), tratou de encher a bexiguinha e colocá-la de ornamento em sua magrela, arrancando risos das testemunhas.
Mas voltando ao pedal, seguimos firmes com guidões no rumo do Corvo Branco, mesmo com o peso de nuvens que passou a dominar a paisagem. Lá chegando, no paredão rasgado em rocha do alto do Corvo, nada mais que uma densa cortina branca estava disponível aos olhos. O jeito foi apressar-se à guarda as bikes na carreta, montar no microônibus e zarpar de volta à Pousada.
A noite foi daquelas em que melhor se consegue dormir: embalada à muita chuva. De manhã restavam apenas alguns pingos, mas o lamaçau não animou o povo. Saímos para passear de ônibus. O consolo foi ver a majestosa Cascata do Avencal por cima, despejando suas águas em 100 metros de queda.
Retornando à Pousada, a despedida foi o almoço feito pela dona Terezinha e sua família (incluindo uma estupenda massa caseira, feita na hora). Despedida com gosto de “até logo”: em novembro estaremos lá, para nossa saída “Urubici Plus”, de 4 dias, com direito à travessia do Parque Nacional de São Joaquim. Faltam menos de 3 meses para outra aconchegante experiência de Acolhida e pedaladas pela região serrana (e as bênçãos de São Pedro, se todas as conjunções astrais colaborarem!)
Contornados pelos rubros e amarelos, em miríades de tons das folhas secas de plátanos e videiras, 26 bicicletas com seus felizes cicloviajantes coloriram o outono ameno da Serra Gaúcha no último feriado de Corpus Christi.
O mote, centrado no Vale dos Vinhedos, a única região brasileira que dá aval geográfico aos seus vinhos, entre Garibaldi, Monte Belo do Sul e Bento Gonçalves, nada mais é que um convite irrecusável para aliar paladares e visuais num dos mais atraentes destinos de cicloturismo do país.
Quanto aos trechos de pedal, ressalta-se que, para além das agradáveis paisagens de parreirais, variadas vinícolas e colônias italianas do Vale dos Vinhedos, todos os arredores são bastante pródigos em atrativos. Um exemplo é o Vale do Rio das Antas, por onde pedala-se num caminho ricamente sombreado, tendo ao lado a barranca alta, desafiada por extensos laranjais, e ouvindo-se o Rio murmurar lá embaixo, já um tanto rouco por ter cedido águas a uma enorme hidrelétrica. Os Caminhos de Pedra, assim chamados pela concentração de edificações em pedra, e a Estrada do Sabor, cujo nome dispensa explicações, também abriram alas à passagem do expressivo pelotão cicloturístico.
Charme de umas, exagero de outras
Sobre as vinícolas, os efeitos da globalização massificante, como descritos no documentário Mondovino, em que tradicionais e pequenos produtores batalham pela sobrevida em meio às colossais corporações, são visíveis na região do Vale dos Vinhedos brasileiro. Assim, pode-se estar em meio a estímulos meramente consumistas e um tanto “fakes”, a exemplo da degustação na gigante Miolo; ou ser recebido pelo próprio herdeiro da família, que nos serve sem pressa amostras fartas de todas as suas obras-primas líquidas, num ambiente aconchegante e com charme original, como é a vinícola Don Giovanni. Ao que parece, nossos pedalantes gostaram mais da segunda opção, opinião da qual compartilhamos, e que poderá transformar-se em ajustes nas próximas saídas.
Já em quesito originalidade, destaque para a Osteria Della Colombina, tanto na gastronomia quanto nos cuidados com a preservação histórica do lugar. Fica em porão de pedra e chão batido, na Estrada do Sabor, e certamente seguirá fazendo parte de nossos roteiros.
Pela freqüente procura, somada a uma lista de espera gerada na última saída, é bem possível que haja outra para o Vale dos Vinhedos, tão logo nos seja possível, quiçá ainda neste ano. Aos interessados, entrem em contato com a gente – um motivo a mais para o próximo pacote acontecer logo, logo!
A pedido de um seleto grupo de Blumenau repetimos, neste último feriado do Trabalho, a cicloviagem pelo roteiro Ilha e Sertão. E como cada viagem, por mais que seja no mesmo roteiro, tenha suas nuances e peculiaridades, com esta não foi diferente.
A primeira novidade foi a parada no rancho do seu Adilson, pai do caro colega Fabinho. Fica lá na Caieira, e haja privilégio: é à beira-mar da Baía Sul, com horizonte de águas e montanhas. Nem é preciso dizer que, em termos de peixes, a abundância é grande. Seu Adilson sabe disso – pesca invariavelmente quase todos os dias, ainda mais agora que pegou férias e não sai mais do rancho! Este simpático manezinho, descendente dos povos mais antigos da região, recebeu-nos com um saboroso “mix”, fritinho na hora: cocoroca, papa-terra, robalo, tainhota – e até baiacu (este me surpreendeu, pensei que somente os mestres japoneses tinha condições de prepará-lo)!
No mais autêntico clima caiçara, foi dali mesmo, no rancho do seu Adilson, que embarcamos para cruzar a Baía. Duas baleeiras deram conta de todo o grupo, e suas bikes. O desembarque foi, digamos, um tanto aventuroso – o mar já começava a assumir seus tons de fúria e, como não há trapiche, o trabalho é melindroso e depende da interação de todo o grupo. Missão cumprida, bonança na seqüência, com a insuperável tranqüilidade de pedalar pelos 8 km da praia da Pinheira.
Zeca do Sertão e o Arante do Pântano
A parte “Sertão” do roteiro foi reservada para o dia seguinte. Antes, a tradicional travessia do Parque Municipal da Lagoa do Peri, pelas trilhas da restinga. E almoço no famoso Arante, do Pântano do Sul. É aquele restaurante dos bilhetinhos na parede, cachaça de graça e uma culinária tipicamente açoriana preparada com o maior zelo. Desta vez, conhecemos ele mesmo, o próprio senhor Arante, dono deste que é um dos mais renomados restaurantes de Florianópolis. Tudo começou em 1958, quando o turismo era palavra desconhecida, e a pequena bodega do seu Arante e sua esposa servia a providencial cachacinha para os pescadores que enfrentavam o mar frio. Depois, passaram a servir um peixinho frito com pirão pra um, uma tainha assada para outro, e por aí foi, até tornar-se essa lenda vida da culinária local que é hoje.
Mas, voltando ao Sertão, a maioria de nossos cicloviajantes optou por subir na caminhada, sobretudo no temível e consideralvemente íngreme trecho inicial, de cerca de 1 km. O final da subida anuncia o Zeca e seu alambique, parada obrigatória para dois dedos de prosa e um dedinho de cachaça. A tarde avança, e é preciso seguir, então o papo nem foi assim tão longo como todos gostaria.
No Museu, um guia ilustre: o senhor Nereu do Vale Pereira
De volta à Pousada do Museu, no Ribeirão, houve tempo ainda para apreciar os últimos raios de sol. De noite, o altíssimo astral Marquinho e sua unida família preparou-nos fabuloso jantar. Faço questão de frisar o calor do atendimento e a qualidade dos pratos – um generoso caldo de frutos do mar, ostras gratinadas e ao natural, tainhas gigantes assadas e outras tão nobres iguarias. O Marquinho tem o dom de lidar com as pessoas, todos por ali são amáveis, e é por isso que a Pousada tornou-se para nós um lugar tão cativo.
E, justiça seja feita (eu não havia falado disso no relato anterior), é preciso contar aos amigos o que há na porção Museu daquela Pousada. O Tour pela história da Ilha de Santa Catarina é conduzido pelo senhor Nereu do Vale Pereira. Doutor em Sociologia, economista e folclorista, contemporâneo e amigo de Franklin Cascaes, o senhor Nereu é uma sumidade em termos da tão rica história local. Sucintamente, explicou-nos alguns fatos mais relevantes da descoberta e colonização da Ilha, a partir do século XVI. Depois, apresentou-se nos o acervo do Museu, abrindo janelas ao passado e ao cotidiano dos antigos moradores do Ribeirão, que é sem dúvida o núcleo habitacional mais antigo de Florianópolis. Destaque para uma caixa de música e um gramofone, em perfeito funcionamento (já havia visto vários, mas nunca funcionando).
Para finalizar, sem esquecer da menção aos nossos ilustres participantes (Norberto e Lúmen, Mariela e Rafael, Fabinho, Alessandro, Pereira e Ana, Martinha), gostaria de assinalar a presença de duas figuras raras:
- Wilberto Boos – esse eu já havia mencionado no relato anterior, mas não custa reforçar, é umas das pessoas mais apaixonadas pela Bicicleta e pelas Cicloviagens que eu conheço
- Sr. Eldon Jung – há pouco mais de 10 anos, esse ilustre senhor, hoje à beira dos 70 anos, redescobriu a bicicleta. De tudo de bom que ela pode nos trazer, ele repeta aos quatro cantos o poder da serotonina. “Pedalar libera serotononina, é o hormônio da felicidade, quem pedala é mais feliz.” Corretíssimo, seu Jung! Mas a ligação com a bici não pára por aí: em sua indústria, em Blumenau, todos os funcionários são estimulados a trocar de transporte, através de um bem elaborado programa para o uso da bicicleta. Além do mais, Eldon Jung é um incansável batalhador pelo uso urbano da bicicleta, e um dos maiores divulgadores e articuladores do Cicloturismo em nível nacional.
Aos queridos leitores, um grande abraço e até a próxima!