Posts com a Tag ‘cicloturismo’

Caminhos e Vinhos, combinação perfeita no Vale dos Vinhedos

quinta-feira, 25 de junho de 2009


Se preferir, veja o álbum de fotos do evento no flickr.

Contornados pelos rubros e amarelos, em miríades de tons das folhas secas de plátanos e videiras, 26 bicicletas com seus felizes cicloviajantes coloriram o outono ameno da Serra Gaúcha no último feriado de Corpus Christi.

O mote, centrado no Vale dos Vinhedos, a única região brasileira que dá aval geográfico aos seus vinhos, entre Garibaldi, Monte Belo do Sul e Bento Gonçalves, nada mais é que um convite irrecusável para aliar paladares e visuais num dos mais atraentes destinos de cicloturismo do país.

Quanto aos trechos de pedal, ressalta-se que, para além das agradáveis paisagens de parreirais, variadas vinícolas e colônias italianas do Vale dos Vinhedos, todos os arredores são bastante pródigos em atrativos. Um exemplo é o Vale do Rio das Antas, por onde pedala-se num caminho ricamente sombreado, tendo ao lado a barranca alta, desafiada por extensos laranjais, e ouvindo-se o Rio murmurar lá embaixo, já um tanto rouco por ter cedido águas a uma enorme hidrelétrica. Os Caminhos de Pedra, assim chamados pela concentração de edificações em pedra, e a Estrada do Sabor, cujo nome dispensa explicações, também abriram alas à passagem do expressivo pelotão cicloturístico.

Charme de umas, exagero de outras

Sobre as vinícolas, os efeitos da globalização massificante, como descritos no documentário Mondovino, em que tradicionais e pequenos produtores batalham pela sobrevida em meio às colossais corporações, são visíveis na região do Vale dos Vinhedos brasileiro. Assim, pode-se estar em meio a estímulos meramente consumistas e um tanto “fakes”, a exemplo da degustação na gigante Miolo; ou ser recebido pelo próprio herdeiro da família, que nos serve sem pressa amostras fartas de todas as suas obras-primas líquidas, num ambiente aconchegante e com charme original, como é a vinícola Don Giovanni. Ao que parece, nossos pedalantes gostaram mais da segunda opção, opinião da qual compartilhamos, e que poderá transformar-se em ajustes nas próximas saídas.

Já em quesito originalidade, destaque para a Osteria Della Colombina, tanto na gastronomia quanto nos cuidados com a preservação histórica do lugar. Fica em porão de pedra e chão batido, na Estrada do Sabor, e certamente seguirá fazendo parte de nossos roteiros.

Pela freqüente procura, somada a uma lista de espera gerada na última saída, é bem possível que haja outra para o Vale dos Vinhedos, tão logo nos seja possível, quiçá ainda neste ano. Aos interessados, entrem em contato com a gente – um motivo a mais para o próximo pacote acontecer logo, logo!

Ilha e Sertão – peixinho frito, Museu e figuras ilustres

quinta-feira, 7 de maio de 2009

por Fernando Angeoletto


Se preferir, veja o álbum de fotos do evento no flickr.


A pedido de um seleto grupo de Blumenau repetimos, neste último feriado do Trabalho, a cicloviagem pelo roteiro Ilha e Sertão. E como cada viagem, por mais que seja no mesmo roteiro, tenha suas nuances e peculiaridades, com esta não foi diferente.

A primeira novidade foi a parada no rancho do seu Adilson, pai do caro colega Fabinho. Fica lá na Caieira, e haja privilégio: é à beira-mar da Baía Sul, com horizonte de águas e montanhas. Nem é preciso dizer que, em termos de peixes, a abundância é grande. Seu Adilson sabe disso – pesca invariavelmente quase todos os dias, ainda mais agora que pegou férias e não sai mais do rancho! Este simpático manezinho, descendente dos povos mais antigos da região, recebeu-nos com um saboroso “mix”, fritinho na hora: cocoroca, papa-terra, robalo, tainhota – e até baiacu (este me surpreendeu, pensei que somente os mestres japoneses tinha condições de prepará-lo)!

No mais autêntico clima caiçara, foi dali mesmo, no rancho do seu Adilson, que embarcamos para cruzar a Baía. Duas baleeiras deram conta de todo o grupo, e suas bikes. O desembarque foi, digamos, um tanto aventuroso – o mar já começava a assumir seus tons de fúria e, como não há trapiche, o trabalho é melindroso e depende da interação de todo o grupo. Missão cumprida, bonança na seqüência, com a insuperável tranqüilidade de pedalar pelos 8 km da praia da Pinheira.

Zeca do Sertão e o Arante do Pântano

A parte “Sertão” do roteiro foi reservada para o dia seguinte. Antes, a tradicional travessia do Parque Municipal da Lagoa do Peri, pelas trilhas da restinga. E almoço no famoso Arante, do Pântano do Sul. É aquele restaurante dos bilhetinhos na parede, cachaça de graça e uma culinária tipicamente açoriana preparada com o maior zelo. Desta vez, conhecemos ele mesmo, o próprio senhor Arante, dono deste que é um dos mais renomados restaurantes de Florianópolis. Tudo começou em 1958, quando o turismo era palavra desconhecida, e a pequena bodega do seu Arante e sua esposa servia a providencial cachacinha para os pescadores que enfrentavam o mar frio. Depois, passaram a servir um peixinho frito com pirão pra um, uma tainha assada para outro, e por aí foi, até tornar-se essa lenda vida da culinária local que é hoje.

Mas, voltando ao Sertão, a maioria de nossos cicloviajantes optou por subir na caminhada, sobretudo no temível e consideralvemente íngreme trecho inicial, de cerca de 1 km. O final da subida anuncia o Zeca e seu alambique, parada obrigatória para dois dedos de prosa e um dedinho de cachaça. A tarde avança, e é preciso seguir, então o papo nem foi assim tão longo como todos gostaria.

No Museu, um guia ilustre: o senhor Nereu do Vale Pereira

De volta à Pousada do Museu, no Ribeirão, houve tempo ainda para apreciar os últimos raios de sol. De noite, o altíssimo astral Marquinho e sua unida família preparou-nos fabuloso jantar. Faço questão de frisar o calor do atendimento e a qualidade dos pratos – um generoso caldo de frutos do mar, ostras gratinadas e ao natural, tainhas gigantes assadas e outras tão nobres iguarias. O Marquinho tem o dom de lidar com as pessoas, todos por ali são amáveis, e é por isso que a Pousada tornou-se para nós um lugar tão cativo.

E, justiça seja feita (eu não havia falado disso no relato anterior), é preciso contar aos amigos o que há na porção Museu daquela Pousada. O Tour pela história da Ilha de Santa Catarina é conduzido pelo senhor Nereu do Vale Pereira. Doutor em Sociologia, economista e folclorista, contemporâneo e amigo de Franklin Cascaes, o senhor Nereu é uma sumidade em termos da tão rica história local. Sucintamente, explicou-nos alguns fatos mais relevantes da descoberta e colonização da Ilha, a partir do século XVI. Depois, apresentou-se nos o acervo do Museu, abrindo janelas ao passado e ao cotidiano dos antigos moradores do Ribeirão, que é sem dúvida o núcleo habitacional mais antigo de Florianópolis. Destaque para uma caixa de música e um gramofone, em perfeito funcionamento (já havia visto vários, mas nunca funcionando).

Para finalizar, sem esquecer da menção aos nossos ilustres participantes (Norberto e Lúmen, Mariela e Rafael, Fabinho, Alessandro, Pereira e Ana, Martinha), gostaria de assinalar a presença de duas figuras raras:

- Wilberto Boos – esse eu já havia mencionado no relato anterior, mas não custa reforçar, é umas das pessoas mais apaixonadas pela Bicicleta e pelas Cicloviagens que eu conheço

- Sr. Eldon Jung – há pouco mais de 10 anos, esse ilustre senhor, hoje à beira dos 70 anos, redescobriu a bicicleta. De tudo de bom que ela pode nos trazer, ele repeta aos quatro cantos o poder da serotonina. “Pedalar libera serotononina, é o hormônio da felicidade, quem pedala é mais feliz.” Corretíssimo, seu Jung! Mas a ligação com a bici não pára por aí: em sua indústria, em Blumenau, todos os funcionários são estimulados a trocar de transporte, através de um bem elaborado programa para o uso da bicicleta. Além do mais, Eldon Jung é um incansável batalhador pelo uso urbano da bicicleta, e um dos maiores divulgadores e articuladores do Cicloturismo em nível nacional.

Aos queridos leitores, um grande abraço e até a próxima!

A pequena e infinita Urubici – Carnaval 2009

quarta-feira, 4 de março de 2009
Clique na imagem para ver o álbum de fotos

Clique na imagem para ver o álbum de fotos

Urubici, nossa querida Urubici, dona de majestosas cachoeiras, respeitosas montanhas, árvores do fruto proibido e araucárias a perder de vista. Urubici das casinhas coloridas, da expressão alegre no rosto do agricultor e dos tantos desenhos gravados nas pedras, das flores contornando os caminhos e dos caminhos que acenam às florestas, ao pedregoso e frio Rio Canoas que dali se despede para viajar ao Uruguai, às inúmeras pontezinhas que espreitam esse correr de águas certeiro e eterno.
Foi lá onde estivemos, alheios à farra momesca, aproveitando o feriadão do Carnaval para pôr as rodas na estrada e cicloviajar. Estavam conosco as parceiras do grupo feminino Saia na Noite, de São Paulo, experimentando pela primeira vez (com ótimo aproveitamento!) uma viagem de bicicleta. Pedalamos também com a turma do Boos, que religiosamente comparece pelas bandas da Serra em todo, sem exceção, feriado de Carnaval. O blumenauense Wilberto Boos, incansável ativista pela causa do ciclista urbano, apaixonado por pedalar, mecânico de bicicleta e além de tudo cicloturista de carteirinha, há 20 anos organiza a rapaziada de Blumenau (todos os anos) para cumprir o ritual em Urubici. Chegam a dezenas de participantes, de diferentes idades e ritmos, mas todos com o mesmo propósito de celebrar no pedal a deslumbrante região.

As inúmeras caras da Pedra Furada

Encontramos a turma ao meio-dia de domingo, já no topo do Morro da Igreja, oficialmente o mirante mais soberbo da cordilheira – tendo em conta que de toda a Serra Geral, que irrompe seus picos desde o Paraná até os famosos Canyons do Sul, são os 1822 m do Morro da Igreja a maior altitude desta formação descendente de remotíssimos derrames de lava. Pode-se estar lá – neste topo – dezenas de vezes, mas jamais alguma será igual à outra. Desta vez, a famosa vista da Pedra Furada foi oniricamente enfeitada pelos chumaços de nuvens, enroscadas no sem-fim de picos e pequenos vales vizinhos ao Morro. Fomos honrados com a repetição deste espetáculo no fim da tarde, a convite de Edson Passold. Este cicloamigo blumenauense, apaixonado por fotografia, não poderia escolher melhor lugar para o registro do pôr-do-sol, ato que compartilhamos com grande prazer.

As águas do Rio da infância

Em plena segunda-feira carnavalesca, reunimos o pelotão ciclístico, alegórico e colorido, para o desfile dos Unidos no Corvo Branco. Na Serra com nome de pássaro, nem tão alta quanto o Morro da Igreja, mas igualmente fantástica e misteriosa, o sol a pino revelava todos os desenhos das pedras, todas as curvas em caracol, toda a imponência e audácia do rasgo na rocha que abre caminho à estrada. Descê-la com rumo ao litoral não era a intenção; uns tantos mais empolgados ainda fizeram uma caminhada a um mirante mais alto, enquanto outro grupo (do qual fiz parte) preferiu fazer meia-volta para atirar-se em um demorado banho no Rio Canoas. O uruguaio Juan Rivas, fotógrafo e designer, diz que o Rio Uruguai é uma das melhores lembranças de sua infância. Aquelas águas, dizia seu pai, “nascem e crescem lá no Brasil, nos altos da Serra Catarinense”. Um dia, Juan veio conhecer a origem do rio que marcou seus dias de criança. De lá não saiu mais, construiu sua casa e uma pousada, num ponto do Rio Canoas de onde se avistam monumentais paredões e a entrada para o Campo dos Padres. Ele conta esta história no prefácio do impecável livro fotográfico, de sua autoria, todo dedicado Serra.

Outra cachoeira no currículo

Ainda não era quarta, mas a terça-feira veio cinza, e em seguida chuvosa. Mesmo assim, parte da trupe seguiu sua sina. Desta feita, descemos a Serra do Panelão por caminhos alternativos que levam ao Morro do Campestre. O Canoas, sempre ele, também cruza o caminho, e para cruzá-lo, a brincadeira é equilibrar-se sobre uma das tantas mini-pontes pênseis. E, como sempre há novidade em Urubici, optamos por desbravar a Cachoeira dos Vacarianos, que até então ainda não figurava em nossos currículos. É preciso abandonar a estrada principal e pedalar 4 quilômetros, um tanto estendidos, ao menos psicologicamente, por conta da lama. Então, surge um caminhozinho gramado, depois vem as pedras, e mais pedras, e 2 travessias do rio – para enfim ouvir o estrondo e avistar a colossal queda d’água desabando na rocha.
Por força da chuva, tomamos uma providencial carona no carro de apoio para avistar os últimos atrativos. No topo do Avencal, avistamos a fabulosa Cascata de mesmo nome, jorrando sobre o abismo de 100 metros para tornar-se um dos mais belos cartões postais da região. Por fim, subimos ao Morro da Antena para do Alto fazer a despedida de Urubici, a pequena Urubici, mas tão infinita em suas paisagens, cenários e belezas naturais.