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Pedal coletivo nas nuvens

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Bairro do Centro nunca viu tanta bicicleta. Apesar do nome pomposo, a típica localidade de interior, composta de uma igreja, um bar e unas duas dúzias de casas, fica perdida entre São Paulo e Minas Gerais, próxima à agitada Campos do Jordão/SP

Nunca houve tantas bicicletas por lá quanto de 5 a 7 de Setembro. Nestes dias aconteceu a 8a. edição do Encontro Nacional de Cicloturismo, evento anual organizado pelo Clube de Cicloturismo do Brasil, que no ano passado aconteceu em Camboriú em plena enchente.

Fui ao encontro contar aos colegas cicloviajantes as dores e delícias de viajar um ano usando a Bicicleta, epopéia que completei em junho último e que registrei em meu Blog, o Ciclonomade. Além da palestra, fui divulgar o trabalho do Caminhos do Sertão, através de exposição de fotos e calendário de viagens, e trocar figurinhas com outros viajantes – tinha bastante gente experiente por lá.

Deu vontade de ir para o Atacama e Uruguai, depois dos relatos de Jorge, Fábio e Warley. Aprendi (mais) um pouco sobre mecânica com as palestras de regulagem de câmbio e freios, e como tod@s ali fiquei com vontade de percorrer o Costa Verde & Mar, circuito elaborado pelo clube de cicloturismo, localizado em Santa Catarina e no qual teremos viagem dos Caminhos do Sertão no feriado da Consciência Negra (20 a 22 de novembro).

Apesar da previsão do tempo não ser das melhores, mais de uma centena de viajantes compareceram ao encontro (e ao menos 50 ficaram de fora) e foram nas pedaladas, marcadas pelas fortes subidas e descidas, afinal já estávamos no cantinho de Minas.

A palestra foi ótima, apesar de ter sido um parto. Como é difícil resumir a experiência mais que intensa desse último ano em 1 hora de falação! Ainda assim, creio que consegui passar o recado dessa trip: que vale a pena ir atrás do sonho mesmo com um planejamento pouco detalhado e, acima disso, com pouca grana e muita garra.

Revi bons amigos, fiz outros ótimos. O clima no encontro não poderia ter sido melhor, como se pode ver nas imagens das pedaladas – era tanta conversa que o tempo passou ligeiro. Agora, só em 2010, quem sabe aqui em Santa Catarina de novo!

Ciclo-abraço, ciclo-viajantes!            :D udu

Veja o álbum de fotos do encontro

Cicloviajantes de todo o Brasil reunem-se em Timbó

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Na véspera do último feriado, o projetista Grey Rombach deixou sua casa, em São Paulo, bem cedo. Teria onze horas de viagem pela frente, rumo a Santa Catarina. Seu carro não é pequeno, mas mesmo assim não foi nada fácil acomodar as bagagens da família toda: a mulher, Ana Lucia, e as 4 filhas, com idades entre 11 e 20 anos. Para o arsenal ficar completo, havia ainda 6 bicicletas, uma por passageiro, distribuídas ao longo do teto e na traseira do automóvel.

Grey faz parte de um grupo ainda pouco conhecido no Brasil, o dos cicloturistas. Assim como ele, cerca de 150 pessoas viajaram até a cidade catarinense de Timbó (SC) para participar do V Encontro Nacional de Cicloturismo, entre 2 e 5 de novembro. Basicamente, o assunto ali era um só: viajar de bicicleta. Mas a variedade de “tipos”, personalidades e faixa etária de quem estava ali, demonstrando um envolvimento passional com as pedaladas turísticas, foi impressionante.

Equipe Caminhos do Sertão: 5 dias de bici, entre Floripa e Timbó

Para nós, da equipe Caminhos do Sertão, o Encontro era novidade. Pela primeira vez participaríamos de tão seleta confraria. Chegamos a Timbó no clima ideal: pedalando desde Floripa numa viagem de 5 dias, totalmente autônoma, com tudo que precisávamos distribuído pelos alforjes.  Cruzamos serras, e até rio sem ponte. “Chuva e sol, poeira e carvão… e alegria no coração!” A letra de Gonzagão não poderia ser mais adequada. Transborda poesia na vida do viajante.

Pois quem é que não se inspira com as flores na margem do caminho, qual jardim de conto de fadas? Ou com misteriosas e densas nuvens, docemente acomodadas sobre montanhas distantes, forradas por matas igualmente misteriosas e intocadas? “Coisas que, pra ‘mode’ se ver, o cristão tem que andar a pé…” De bici também é possível, Gonzagão, porque a velocidade do cicloturista é baixa, contemplativa, harmoniosa.

Figuras raras no Encontro

No caminho para Timbó, pensava em que tipo de público iria conhecer no Encontro. Cheguei a imaginar que seriam somente viajantes gabaritados, que iriam desdobrar-se em relatar suas epopéias de milhares de km em bicicleta. Que seriam somente jovens, de pleno vigor físico, relatando suas travessias de desertos, pântanos, sítios em guerra. Me enganei redondamente. É claro que esse perfil estava presente, mas nunca imaginei encontrar algo como a família Rombach, por exemplo.

Ou o seu Loreste Voltolini, um jovem de 72 anos, morador de Timbó, que já pedalou 90 km em um só dia. Engana-se quem pensa que o veículo dele é uma Barra Forte ou similar. “Quando eu conheci a Mountain Bike, há 20 anos, joguei fora as bicicletas sem marcha”, relata, sorrindo. Sua magrela é uma full suspension, 21 marchas, toda equipada. Só o paralama traseiro lembra os modelos antigos. “Mas só uso quando chove,  pra não molhar a bunda”, explica. A gargalhada foi incontrolável.

Vale Europeu: primeiro roteiro cicloturístico do Brasil

Seo Loreste, a família Rombach e no mínimo outra centena de pedaleiros itinerantes acompanharam, todos os dias, as 4 pedaladas promovidas pelo Encontro. Com distâncias entre 15 e 30 km, os passeios foram uma oportunidade para conhecer trechos do recém-criado Circuito Vale Europeu de Cicloturismo. Trata-se do primeiro roteiro desenvolvido no Brasil com informações especialmente direcionadas para percorrê-lo de bicicleta.

Como se vê, já foi o tempo em que os cicloviajantes eram confundidos com pagadores de promessa, ou com malucos que abandonam a família e se lançam numa aventura insana por terrenos inóspitos. Gestores públicos locais, como as prefeituras de Timbó e entorno, começam a perceber a importância desse tipo de visitante para o desenvolvimento econômico da região.

O pioneirismo em desenvolver o Circuito é mérito do Clube de Cicloturismo do Brasil, uma ONG fundada há cinco anos e que tem reunido boa parte dos viajantes de bicicleta nacionais, com seus relatos de viagens, trocas de experiências, projetos de expedições. O mapeamento cicloturístico do Vale Europeu, de excelente qualidade, foi obra dos fundadores do Clube, Eliana Garcia e Rodrigo Telles, e do sócio Walter Magalhães. O financiamento coube ao Consórcio Turístico Regional “Vale das Águas”, instituição que reúne os 9 municípios atravessados pelo roteiro. Importante também foi o incentivo e contatos dados pela ABC (Associação Blumenauense Pró-Ciclovias), incansável promotora do estilo de vida ciclista, para a criação do roteiro.

Guia precioso para @s cicloviajantes

O trajeto, de 300 km, é quase todo por estradinhas de terra secundárias, tranqüilas, num convite ao deleite e à contemplação. Duas partes distintas compõem o roteiro: a baixa, com altitudes médias de 100m e trechos acompanhando o vale dos rios, entre Timbó e Rodeio; e a alta, com altitudes que beiram os 1000m, em regiões mais isoladas, onde o caminho por vezes serpenteia a mata fechada, permitindo um maior contato com as exuberantes fauna e flora locais.

O desenvolvimento do Circuito Vale Europeu de Cicloturismo foi compilado em um guia bastante completo. Na edição, também traduzida para espanhol e inglês, o cicloturista encontra valiosas informações sobre os serviços oferecidos nas cidades, classificação das dificuldades física e técnica dos trechos, gráfico altimétrico e planilhas detalhadas. É só montar na “magrela” e sair pedalando, preparando-se para as surpresas e os atrativos do caminho – cachoeiras, paisagens bucólicas, traços culturais dos colonizadores europeus, entre tantos outros. Antonio Kolb, juiz de prova de balonismo que mora em Pindamonhangaba, não perdeu tempo: tão logo terminou o Encontro de Cicloturismo, subiu na bike e foi conferir de perto o Circuito. Deve concluí-lo em uma semana, seguindo as instruções do guia.

Pedalando na Ásia e as relaçoes entre yoga & bicicleta

Mas nem só de passeios e encontros inusitados foi feito o Encontro. Variadas palestras compuseram a programação. “De bike pela Ásia” foi uma delas, onde um casal paulista relata suas experiências na cicloviagem de 10 meses pelo continente. Para realizar esse sonho, César Pires e Ana Fukui juntaram suas economias durante vários anos. O registro visual da viagem transformou-se, pelas mãos do artista plástico César, em delicadas obras de arte. São aquarelas de encher os olhos, produzidas in loco nos confins de Vietnã, Laos e China.

Goura Nataraj, professor de yoga em Curitiba e ciclista inveterado, trouxe ao Encontro inteligentes analogias entre Yoga&Bicicleta. Como todo yogi, explica Goura, é alguém consciente de si e do seu habitat, nada mais comum do que questionar a cultura destrutiva dos automóveis. Não se propõe o extermínio dos carros, apenas seu uso mais racional. Ele também classifica o uso da bicicleta como um importante complemento aeróbico para os asanas, que são as posturas do yoga. O professor ensinou aos espectadores, na prática, duas técnicas respiratórias (pranayamas) distintas: uma para acalmar e outra para estimular o corpo e a percepção.

Seo  Valdo e os “delicados terrenos das relações humanas”

Seria impossível descrever todas as personalidades interessantes do Encontro. Foi árdua a tarefa de selecioná-las, mas assim o fiz – e o seu Valdo não poderia ficar de fora. Ex-padre, hoje com 60 anos, percorreu no início do ano um trecho de 800 km em bicicleta, no Chile. Da experiência resultou um livro, cujo título já é uma amostra do tom espartano da expedição: “Pedalando e desvendando a Carretera Austral – 30 dias com 500 dólares”. Reproduzo, abaixo, um trecho do prefácio que despertou minha atenção.

“Mais do que viagem ou aventura no sentido físico, foi uma experiência vivida em terras estrangeiras, nas terras inóspitas e belas da Patagônia e nos terrenos delicados e sensíveis das relações humanas”.

É sábio o seo Valdo. Realmente, a relação harmoniosa com os companheiros de viagem por vezes é mais difícil que as travessias de serra, as intempéries ou outras dificuldades do caminho. Para conviver e pedalar em grupo, nada mais necessário do que o exercício da tolerância, a prática do respeito, o estímulo ao companheirismo e à comunhão. São lições que o cicloturista aprende em profundidade, e faz questão de absorvê-las também no dia-a-dia, mesmo quando não está viajando.

Últimas palavras

Aos queridos leitores, confesso: estou ainda em fase de deslumbramento com tudo o que rolou no Encontro. Reconforta a alma saber que, nesse mundo tão embrutecido pelos petro-dólares, multiplicam-se as pessoas que o embelezam com seu modo alternativo de agir, humanizando as relações e o ambiente no compasso harmonioso do pedal.   Teria muito mais a dizer -  mas vou parando por aqui, afinal de contas, queremos atualizar nosso site ainda no frescor dos acontecimentos! Aos tantos amigos que fizemos no Encontro, um fraterno e caloroso abraço. Não temos dúvidas de que em algum ponto dos infindáveis ciclo-caminhos ainda vamos nos encontrar.

Por Fernando Angeoletto – Equipe CdS