Já passava de meio-dia e meia quando nossa comitiva, a bordo de uma caminhonete e um micro-ônibus, desembarcou na praia de Itapirubá (município de Imbituba). Houve atraso e a vilã, como sempre, foi a BR 101, onde um acidente ocorrido na manhã da Independência implicou em congestionamento que já ultrapassava os 6 km.
Desviando dessa fila, ao menos fomos recompensados pelo visual das dunas do Macacú e da praia de Siriu, percorrendo a estrada de terra alternativa que une Paulo Lopes a Garopaba.
Em Itapirubá, não demorou muito para que elas dessem o ar da graça. Fomos recepcionados por duas baleias, saudando-nos com suas evoluções num ponto relativamente próximo da praia. Que alívio; imagina se elas não aparecem, depois de tamanha propaganda que fizemos? Mas é setembro e nessa época as francas, batizadas assim pela facilidade com que eram mortas para virar óleo, nadam por aqui em busca de águas mais aconchegantes para parir e amamentar. Ainda veríamos outras pelo caminho.
O vento nordeste, gelado e contrário ao nosso rumo, marcou a pedalada logo de início. No ermo de Itapirubá, os cicloviajantes espalhados pela areia da praia compunham colorida paisagem, adornada ainda pelo céu cristalino e o mar mexido. Bravamente desafiando o vento contra, nosso grupo de 20 pedalantes – dos quais 9 eram mulheres, demonstrando que é fato a preferência feminina pelo cicloturismo – seguiu até a Vila, de onde abandonamos a praia e atravessamos a cidade por asfalto.
Baleia com lua cheia: a rima que se confirmou!
A primeira parada foi no Museu da Baleia Franca, ainda em Imbituba. Instalado em prédio histórico, reformado a partir das ruínas de um antigo centro processador de baleias, o museu conserva curiosos e mórbidos equipamentos da carnificina imposta aos cetáceos, em tempos nem tão distantes assim (a última estação baleeira de SC parou de funcionar em 1973). Fornos de autoclave enormes, ali expostos, derretiam os bichos, reduzindo-os a óleo que queimava em alguma lamparina ou trazia liga à argamassa. Conta-se que a fedentina em derreter as baleias era tamanha que nem os próprios trabalhadores do local suportavam.
Museu visitado, é hora de partir – o Souza já acionou a sirene da sua magrela, como sempre fez para chamar o grupo ao final de cada parada para descanso. A maré já estava alta e não foi possível pedalar pela praia da Ribanceira. Tocamos por estradinha paralela, com o mar sempre a vista, as baleias vez ou outra, até Ibiraquera. Contornamos uma parte da lagoa de mesmo nome, com o sol se pondo e desenhando silhuetas no horizonte. Logo que chegamos na praia do Rosa, anoiteceu e a lua se apresentou, em princípio tímida, guardada por nuvens. Eu não vi, porque fui deixar as bagagens na pousada, mas os outros 19 me contaram que o tal mamífero gigante também apareceu nesse exato momento - baleia com lua cheia, eis que a rima se confirmou !!
Ocupamos 6 quartos da confortável pousada Rosa e Canela. Gabriela, a proprietária, merece créditos pelo excelente atendimento. Instalações impecáveis e um café da manhã estilo colonial – bela “sustança” para encarar o segundo dia de pedaladas! Deixamos o Rosa e apontamos para oeste, no rumo do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro.
Recanto Belo, um refúgio no sertão
Atravessamos a BR 101 na altura da Penha, bairro de Paulo Lopes. A partir daí, entramos no verdadeiro espírito dos Caminhos do Sertão: estradinhas rurais, pouco movimentadas e com a paisagem do mar de montanhas ao fundo. Esse cenário é ainda mais marcante na altura do Espraiado, um morro onde a mata é mais densa e pujante e o único sinal de civilização é a estrada que percorremos. Ladeira abaixo, passamos pelo CRETA (Centro de Recuperação de Toxicômanos e Alcoolistas) e em seguida chegamos ao Recanto Belo, ponto do segundo pernoite.
O Recanto pertence ao Heinz, um suíço de 77 anos que construiu um refúgio de conto de fadas em pleno sertão de Paulo Lopes. Jardins de aparência imaculada, um lago coalhado de tilápias e uma sala de estar com decoração requintada compõem o ambiente. Nossas acomodações eram duas cabanas a 300 metros da sede, onde dormiu metade do grupo. A outra metade acampou ali perto – de noite, as rajadas de vento nordeste foram assustadoras!
Pouco depois que chegamos ao Recanto, fomos guiados pelo Sidnei, morador local, numa caminhada pela mata com rumo a uma bela cachoeira. A água estava fria de doer os ossos, o que não impediu alguns de nossos cicloviajantes de tomar um bom banho. Logo voltamos à trilha para o percurso de volta, que ainda demoraria quase uma hora. O sol já ia sumindo, e ninguém estava disposto a enfrentar a mata de noite.
A carioca Vitória, esposa de Heinz, auxiliada pela empregada Rosa, preparou-nos farto jantar. Destaque para as tilápias fritas, criadas ali mesmo na propriedade. Antes de dormir, divertimo-nos assistindo as fotos dos dois dias de pedaladas, a beira da fogueira, onde mais tilápias estalavam para nos servir de petisco.
Travessia cancelada
Na manhã seguinte, o vento nordeste, que já durava três dias, parecia ter acalmado. Essa condição era um pré-requisito para que pudéssemos atravessar a baía Sul com segurança, de barco, entre a praia do Sonho (continente) e a Caieira (Ilha de Santa Catarina, Floripa). Ocorre que, no decorrer da manhã, o vento forte passou novamente a predominar. Ao ligar para o capitão do barco, recebi a frustrante notícia de que a travessia havia sido cancelada em virtude do mau tempo, confirmando o que já havia previsto na noite anterior.
Ficamos surpresos; pessoalmente, eu havia feito essa travessia pelo menos uma dezena de vezes, e nunca houve problema. A solução foi adotar uma rota alternativa, que evitasse a BR 101 e nos conduzisse a Ilha da melhor maneira possível. Desviamos pelo Maciambu, próximo ao Morro dos Cavalos, onde há uma aldeia guarani ancestral que hoje é seriamente ameaçada pela rodovia.
Passamos pela Enseada do Brito, o maior distrito de Palhoça, marcada pela arquitetura açoriana e os incontáveis cultivos de ostras e mariscos. Na localidade de Sul do Rio, aponte pênsil sobre o rio Cubatão (maior manancial da grande Florianópolis) me causou vertigem ? afinal, enquanto os colegas a atravessaram pedalando, eu passei dirigindo a caminhonete de apoio (com reboque), e sempre dá uma ligeira impressão de que aquele troço vai desabar!
Depois da providencial pausa para almoço – tão farto que queríamos levar as marmitas
, entramos em ambiente urbano. Ponte do Imaruim, em Palhoça; centro histórico e avenida beira-mar, em São José; via Expressa e passarela da ponte Pedro Ivo, em Floripa. Fim da viagem, estávamos prestes a chegar no Largo da Alfândega e comemorar a agradável viagem, ansiedade e cansaço já eram grandes.
Nos últimos 200 metros um cicloviajante vai ao chão. Na passarela entre o Centrosul e o Direto do Campo, um degrau absolutamente inútil no meio da rampa foi o vilão da queda do Phil, um colega que nos acompanha desde a primeira viagem dos Caminhos do Sertão. Camarada Phil, aproveitamos para te enviar todas as boas vibrações, desejando que a recuperação seja breve e que volte logo a cicloviajar conosco! E à Prefeitura de Florianópolis, fica o toque de consertar tal passarela urgentemente!
Finalizando, um pequeno agradecimento a todos nossos cicloviajantes dessa última viagem:
- Nara, que viajou pela terceira vez conosco, sempre encantada com todas as novidades dos Caminhos;
- Mário, que se aposentou justamente na semana da viagem, e agora promete uma nova vida de pedaladas pela frente (agradeço o apelido de Poeta que me deste, valeu!);
- Souza, transbordando juventude aos 57 anos, sempre nos fazendo rir com suas piadas e a escandalosa sirene de sua magrela;
- às colegas Viviane e Gisele, que vieram de Curitiba especialmente para pedalar conosco e que pelo astral constante, demonstraram ter gostado da idéia ;
- às irmãs Tati (que veio de São Paulo) e Ju (que, como o Phil, é pioneira dos Caminhos do Sertão), sempre passando com um sorriso;
- Carine, que começou a pedalar há um mês, e já se declarou viciada. Com um vício desse, você vai longe, amiga ? basta trocar o band-aid pelo sofá-cama!;
- Claudia, que veio de Curitiba e jamais havia andado tanto de bicicleta, mas surpreendeu a todos mandando muito bem até o final;
- Renato, grande entusiasta e apoiador dos Caminhos do Sertão, que parece menino fazendo evoluções com sua Trek;
- Adilson, sarrista de primeira, sempre brincalhão e bem-humorado;
- Alê, surfista-pedalante, vira e mexe divertindo a turma com seu jeitão hilário;
- Flavia, com seu indefectível sorriso no canto da boa (né Fla?), e autora do pão que já virou atrativo em nossas viagens (cuja receita é guardada a sete chaves);
- Fernando, com sua bici de rodas enormes e estoque de delícias integrais, e que descobrimos já ter pedalado conosco nas Bicicletadas
- Silvana, sempre guerreira, a vontade com seu ritmo e também amiga antiga dos Caminhos do Sertão;
- aos guias Dudu, Jou e Pereira, sócios de agora, amigos de sempre.
Forte cicloabraço a tod@s, e até a próxima, em outubro!